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Os thillers policiais marcaram muito o cinema de gênero nos EUA durante toda a sua história. Para provarmos isso, é só revermos os fatos: seja com filmes nos anos de ouro da Hollywood pós-guerra – como no noir “Relíquia Macabra” (de John Huston) ou em clássicos de Hitchcock como “Janela Indiscreta” -, seja no final do século XX como em “O Silêncio dos Inocentes” (Jhonatan Demme) ou mais recentemente como em “Garota Exemplar” (David Fincher), os “crime thrillers” sempre figuram, algumas vezes mais, outras nem tanto, entre a produção cinematográfica desse país. E nesse “Presságios de um Crime”, toda essa tradição cultural é homenageado em um filme cheio de incerteza e tensão, com alguns clichês de seu gênero: um envolvente e perturbador suspense que, construído à base do mistério por trás dos crimes cometidos, contracenando com o drama psicológico dos personagens principais, gera uma angústia verdadeiramente sinistra. Além do mais, o diretor do filme, Afonso Poyart, reafirma que todo o visual estiloso de seu longa de estreia, “2 Coelhos”, não é mera coincidência: a colcha de retalhos meio psicodélica e extravagante, cheia de referências, torna-se sua grande assinatura. Poyart, aqui, constrói um suspense que utiliza muito da nostalgia e faz ótimo uso do terror psicológico para realizar um estudo de personagens, ao mesmo tempo que constrói uma narrativa cativante.

Na trama, conhecemos dois agentes do FBI, Joe Merriweather (Jeffrey Dean Morgan) e Katherine Cowles (Abbie Cornish) que são responsáveis por tentar capturar um serial killer que deixa algumas pistas indecifráveis nas cenas dos crimes cometidos. Buscando alguma luz nesse difícil caso, Joe procura o antigo colega John Clancy (Anthony Hopkins), um homem misterioso, já no final da vida, que tem dons médiuns, que passou por um grande trauma com sua filha. Assim, o trio vai aos poucos tentando decifrar o temido serial killer que utiliza a eutanásia como argumento.

O roteiro, assinado por Sean Bailey e ” (Os Vigaristas), é um pouco confuso. No primeiro ato, muitas informações são arremessadas freneticamente. O público pode se sentir um pouco perdido principalmente nas lacunas abertas sobre a personalidade de Clancy. A partir do segundo ato, as peças são mostradas com mais clareza, e, no terceiro ato é um show de suposições, parece que cada personagem tem algumas opções para o desfecho da trama, isso certamente deixa o público curioso com o que irá acontecer nas cenas seguintes. O mais importante é que, no final, John Clancy é preenchido completamente, e assim a história como um todo se sustenta até o fim, nas costas deste intrigante personagem executado com maestria por Hopkins.

Alfonso Poyart fez um interessante trabalho nesse “Presságios de um Crime”: um thiller policial pautado no psicológico. É um filme pequeno, de pouco visibilidade e repercussão mas que, todavia, merece ganhar um espaço do nosso tempo, já que consegue realmente nos cativar com a sua narrativa, o seu desenvolvimento, o seu estudo de personagem e a sua maneira de lidar com os mistérios. Com um Anthony Hopkins atuando muito bem em um lugar que adora estar (filmes de suspenses, com personagens atordoados), dá um tom sinistro elogiável ao filme. Ainda esse ano, Poyart estreia sua próxima produção, um drama sobre a vida do lutador José Aldo (intitulado “Mais Forte Que o Mundo”).

Presságios de Um Crime é uma obra que merece ser vista e admirada no cinema, não só para apoiar o reconhecimento de um brasileiro por trás das câmeras internacionais, mas porque oferece quase duas horas de tensão e excelentes atuações em busca de um serial killer louco e descontrolado, que sim, foi muito bem interpretado por Farrell. Ainda achamos que ele seja assim na vida real.