dom, 19 julho 2026

Crítica | Jurado N° 2

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Logo na primeira cena de seu novo filme, Clint Eastwood constrói a figura do mocinho ideal, vivido por Nicholas Hoult, Justin Kemp se apresenta como o marido perfeito, sempre atencioso com a esposa grávida, atendendo a todos os seus desejos, acalmando suas preocupações, uma mistura perfeita entre racionalidade, calma e gentileza. Em poucos minutos, aquele homem idealizado se mostra como um verdadeiro herói imaculado hollywoodiano.

Porém, quando Justin é colocado no banco de jurados de um suposto assassinato brutal, sua perfeição inicial começa a cair por terra, como uma miragem no meio do deserto que se desfaz conforme nos aproximamos dela. Através de memórias confusas, Justin começa a questionar-se sobre seu possível envolvimento naquela situação. A revelação é feita simultaneamente para o público e o protagonista, que diante da descoberta de seus atos, passa a adotar uma postura questionável e agir em desconformidade com a figura de “mocinho” apresentada outrora. A representação de um ideal masculino desconstruído, a partir de sua crise de consciência e a culpa que carrega.

Outra personagem tão falha, quanto humana, é Faith Killebrew, a promotora que integra um sistema de justiça cheio de fragilidades e politicagem. Uma mulher focada em sua carreira, que fará – quase – tudo para conquistar o cargo almejado, ao menos até começar a perceber a série de injustiças cometida ao longo do processo que a levou tão longe.

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Clint explora ricamente esses dois personagens cheios de humanidade, com suas respectivas dúvidas e imperfeições, mostrando a forma como cada um deles decide lidar com seus dilemas. Enquanto um tenta a todo custo justificar suas ações e acredita que não merece qualquer tipo de punição por se considerar “um bom moço”, a outra procura remediar de alguma forma os impactos de sua displicência profissional, ainda que isso lhe custe sua reputação.

Por sua vez, o final que alguns consideraram aberto, é – na minha opinião – bastante claro, dentro do contexto do filme. Apenas menos didático e explicativo do que o padrão do blockbuster hollywoodiano moderno. O diretor sugere de maneira implícita qual será o desfecho daqueles personagens, sem narrar os pormenores. Deixando um norte evidente para o espectador imaginar o que acontece depois do último corte.

Eastwood é um realizador com um forte senso de imagem e nos conta muito mais através dos planos e cortes, do que por meio de diálogos expositivos. Não apenas no final, mas durante o filme todo, somos convidados a montar as peças do quebra-cabeça aos poucos, recebendo pequenos fragmentos de informações de cada vez, ao invés de uma resposta completa e acabada. O que é infinitamente mais recompensador, pois somos convidados a mergulhar ativamente na obra.

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
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