Encerrar Stranger Things nunca foi apenas uma questão de concluir uma trama de ficção científica. O episódio final carrega o peso de quase uma década de expectativa, crescimento e um vínculo emocional quase sem precedentes entre uma obra e seu público. Mais do que um desfecho narrativo, ele funciona como um ponto de amadurecimento coletivo, tanto para os personagens quanto para quem acompanhou essa jornada desde que as luzes de Natal de Joyce Byers piscaram pela primeira vez.
O roteiro demonstra uma maturidade rara ao entender que não precisa ser puramente pirotécnico. Em vez de apostar apenas em reviravoltas chocantes, o episódio valoriza o impacto emocional construído tijolo por tijolo ao longo das temporadas. As resoluções são guiadas pela evolução interna dos personagens, respeitando a identidade da série até o último minuto. Cada decisão dramática ecoa conflitos antigos sob uma nova perspectiva, provando que a transição da infância para a vida adulta é o verdadeiro “Mundo Invertido” que todos eles tiveram que atravessar.
O trabalho do elenco neste encerramento merece um capítulo à parte. É fascinante observar como os atores transbordam uma honestidade que só anos de convivência poderiam proporcionar.
Millie Bobby Brown entrega aqui sua versão mais refinada de Eleven. Ela abandona a urgência do poder bruto para abraçar uma atuação contida, onde o cansaço e a aceitação de seu destino transparecem mais nos ombros pesados do que nos gritos. Da mesma forma, Noah Schnapp consolida Will como a alma da série; sua capacidade de transmitir vulnerabilidade sem dizer uma palavra é o que dá ao episódio seu tom mais melancólico e profundo.
O núcleo veterano também atinge o ápice. Winona Ryder e David Harbour oferecem uma performance que serve de âncora emocional, trazendo uma gravidade que equilibra o caos. Mas é no grupo dos “jovens adultos” que vemos o amadurecimento mais visceral: há uma cena de diálogo silencioso entre os personagens que começaram como crianças em 2016 que resume todo o peso do tempo. Não há exageros; a emoção surge de forma orgânica, fruto de uma química que se tornou real fora das telas.
A evolução dos atores, muitos dos quais começaram como crianças e cresceram diante das câmeras, é perceptível na confiança com que abordam conflitos internos e externos de seus personagens. Essa naturalidade confere verdade às emoções, o que permite que momentos de reflexão profunda ou tensão extrema carreguem peso dramático real.
Visualmente, o episódio é uma obra-prima de composição. A fotografia assume um papel narrativo crucial, utilizando contrastes de sombras e cores que remetem à dualidade entre o mundo que eles tentam salvar e a escuridão que os moldou. Há um cuidado evidente em alternar planos de escala épica, que mostram Hawkins sob uma ótica apocalíptica, com enquadramentos fechados, quase claustrofóbicos, que focam no que realmente importa: as mãos dadas, os abraços de despedida e os olhares de quem sabe que nada será como antes.
A trilha sonora acompanha esse ritmo com uma precisão cirúrgica. Ela sabe o momento exato de recuar, permitindo que o silêncio atue como extensão do luto e da reflexão. Quando a música ressurge, ela não é apenas um adereço oitentista; ela é o pulso emocional que conecta o espectador à nostalgia da primeira temporada, fechando o ciclo sonoro da saga.
E as referências a cultura pop continuam muito presentes. Assim como nos episódios anteriores, cada cena possui algo que mostra ou relembra um filme de décadas passadas. De Caça Fantasmas à Rambo, a nostalgia complementa as tomadas, o que nos faz envolver ainda mais, não só pela boa história, mas em busca de cada “easter egg” presente!
Narrativamente, o final entende que fechar uma história não significa responder cada mistério de forma didática, mas sim dar sentido ao caminho percorrido. As escolhas feitas não anulam as dores ou as perdas anteriores; pelo contrário, elas reconhecem que crescer envolve carregar cicatrizes.
Stranger Things termina como começou: colocando as conexões humanas no centro de tudo. Não busca ser um final perfeito no sentido técnico de “felizes para sempre”, mas sim um final honesto. É um capítulo que respeita a inteligência do público e a integridade de seus protagonistas, permitindo que Hawkins descanse, enquanto nós, espectadores, ficamos com a sensação de que fizemos parte de algo que definiu uma geração.


