dom, 21 junho 2026

Crítica | Harpía: Presença Maligna

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O filme abre com um breve prólogo, no qual vemos uma mãe tentando acalmar sua bebê chorando, ao mesmo tempo em que uma criança lhe cobra atenção. Uma câmera na mão segue os passos da mulher e sua filha mais velha conforme elas se ausentam do quarto da recém-nascida que finalmente dormiu, quando as duas saem do frame, a câmera – agora fantasmagórica – retorna aos aposentos da mais nova para mostrar a sombra de uma figura com corpo de humano e cabeça de ave pairando acima do berço. Letras informam se tratar de uma criatura folclórica conhecida como Harpía – ou Beldham no idioma original – uma velha bruxa.  

Após essa introdução, assistimos uma mulher chegando à casa de sua mãe, ela é mãe solo e traz consigo uma bebezinha de quem não se desgruda. A princípio, todos os indícios apontam para ela estar lá para cuidar da vó da criança, que começa a dar sinais de envelhecimento, precisando, inclusive, do auxílio de uma cuidadora que também está morando na casa.

Contudo, essa percepção começa a mudar drasticamente quando percebemos, pela sagacidade da matriarca e o pelo comportamento obsessivo da jovem mãe, que talvez as dinâmicas de cuidado não sejam exatamente como acreditávamos em um primeiro momento. A medida em que a narrativa avança, a dinâmica entre as duas vai ficando gradualmente mais tensa enquanto tentam se dominar.

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Durante o dia, acompanhamos os dramas familiares insossos entre mãe e filha, com discussões sempre permeadas por meias palavras para que o filme apenas dê pistas da suposta grande revelação guardada para o final. Já, durante à noite, a protagonista é assombrada por sonhos sobre uma bruxa que reside nas paredes da casa e aparece no quarto de sua filha, enquanto todos dormem. Quando tenta alertar aos demais sobre seus temores, a mulher é – obviamente – desacreditada por todos, com exceção da ajudante da mãe, que se mostra solidária com ela, enquanto o restante dos personagens acredita que a mulher está enlouquecendo. O próprio filme brinca com a ideia, ora fazendo parecer que a bruxa é real, ora mostrando a instabilidade mental da personagem principal.

O clima de desconfiança mútua agrava ainda mais a relação já conturbada entre as duas mulheres, escalonando a gravidade dos embates e das atitudes tomadas. O problema é a falta de tato que a diretora tem para lidar tanto com o drama, quanto com o terror: os confrontos, assim como os pesadelos, são cíclicos, repetindo os mesmos padrões em escalas maiores para que o filme consiga justificar sua duração de longa-metragem. A trama parece que vai avançar a partir de uma pequena virada do meio para o final, porém não avança e volta a amiudar seus enredos.  

Para além disso, o filme não tem qualquer cuidado estético, a fotografia chapada e sem profundidade de campo – que, atualmente, domina filmes de estúdio e pequenas produções direto para o streaming – deixa o longa com aquela cara de mídia criada para preencher catálogo, sem nenhuma identidade visual. Nem mesmo a figura da tal bruxa que assombra o imaginário da protagonista é pensada com algum zelo artístico para torna-la memorável ou assustadora. Entre cenas de drama apáticas e tentativas frustradas de sustos, quase nada na obra sai do campo do genérico, com exceção de uma ou duas cenas que apostam em um terror mais direto, com lampejos de criatividade.

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A diretora aposta todas as suas fichas na “grande” reviravolta guardada para o final, como se um desfecho surpreendente conseguisse justificar a mediocridade do restante. De forma preguiçosa e didática, o filme se encerra sem construção de momentum, com um clichê ridículo e mal trabalhado sobre as dificuldades da maternidade solo, usando-se de metáforas supostamente engrandecedoras, sem deixar espaços para nuances.

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
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