seg, 15 junho 2026

Crítica | O Frio da Morte

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É complexo discorrer sobre um filme que habita permanentemente o meio do caminho (e aqui não há qualquer trocadilho com os desdobramentos geográficos ou os percalços da narrativa). Não utilizo a expressão necessariamente para apontar um problema insolúvel, mas pelo fato de que o projeto parece tensionado por dois desejos distintos que nem sempre estabelecem um diálogo, operando antes como uma justificativa funcional para a permanência da protagonista, Barb, vivida com a segurança e o rigor habituais de Emma Thompson, naquele ambiente de isolamento.

Em linhas gerais, a direção de Brian Kirk estabelece sua premissa no choque entre a vulnerabilidade e a frieza (seja da natureza ou não), partindo de uma mulher perdida em um cenário inóspito sob o inverno rigoroso de Minnesota que depara-se com um casal responsável pelo sequestro de uma jovem. Ou seja, desde os minutos iniciais, arquiteta-se uma atmosfera de suspense que Kirk, em seus bons momentos, maneja com habilidade técnica. O primeiro encontro entre Barb e o personagem de Marc Menchaca, por exemplo, é trabalhado formalmente a partir de uma simplicidade clássica: a decupagem aposta em planos alternados que capturam não apenas a tensão dos rostos, mas a argúcia com que Thompson processa as irregularidades daquele espaço. Esse domínio retorna no reencontro ja próximo do final, onde a organização cênica se destaca pela forma como os atores trabalham a corporalidade e o esgotamento físico, ainda que o roteiro por vezes hesite em integrar organicamente esse estudo de personagem à urgência do suspense.

Eis, então, a principal questão do longa-metragem (e que, ressalto, não se limita a ele e nem sempre surge como problema). Existe um desejo de que tudo o que é posto em cena exista a partir de um propósito explicativo, a partir do passado de um personagem, da dor ou do trauma que ele carrega, fomentando assim uma estrutura que se funciona bem quando se detém aos elementos de suspense, enfraquece quando o drama que correr pela borda não é tão bem trabalhado.

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Isso gera, justamente, um filme em que a tensão e o peso psicológico competem por um espaço que o projeto não consegue equilibrar. Recaímos — e, repito, é um sintoma que este filme também sofre, mas que consegue sobressair em relação a outros — de causa e efeito: o trauma “A” obrigatoriamente gera o comportamento “B”. Essa insistência em ancorar o presente no passado gera uma narrativa cuja troca de marcha nem sempre é feita sem solavancos. Enquanto o suspense cresce — a personagem da Judy Greer é um interessante motor — o drama tangencial atua como um motor que falha ao subir uma colina de neve (desta vez o trocadilho é intencional).

Essas inserções dramáticas soam quase como notas de rodapé necessárias justificar o desejo pelo drama acima de um estudo de gênero. Quando um filme parece desejar ser algo além do que ele é (e deixa isso claro), ele retira um pouco do prazer da descoberta. Ao final da projeção, o filme “fica pelo caminho” porque prefere a segurança de um drama à força de uma tensão que se sustenta por si só. É uma obra que, junto a sua tecnicidade competente, carece de um impulso e de uma liga que sustente tudo por que é considerado base pelos seus realizadores. 

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