qui, 9 julho 2026

Crítica | O Ano em que o Frevo Não Foi Pra Rua

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As coloridas ruas de Olinda, tão famosas justamente pelas tonalidades vibrantes que pintam as portas de suas residências, são registradas em preto e branco neste documentário de pandemia. A mensagem visual não poderia ser mais clara: a felicidade daquele lugar policromático foi apagada pelos tempos sombrios. As sombrinhas do frevo que costumeiramente trazem consigo as cores da bandeira do estado de Pernambuco, aqui são tomadas pelo acinzentado do luto, como se elas também soubessem que, naquele ano, não irão paras ruas.

São escolhas estéticas simples, porém capazes de evocar sentimentos de melancolia, afinal simples não é algo inerentemente negativo e quando bem explorado na sétima arte – ou em qualquer arte – desperta sentimentos basilares e universais. É impossível assistir com apatia os bonecos carnavalescos descendo as desertas ladeiras de Olinda embaixo de chuva, como se até mesmo o sol estivesse de quarentena ou, simplesmente, se recusasse a sair sem a companhia do frevo.

Se as imagens já falam volumes, os depoimentos colhidos pela dupla de cineastas enfatizam a falta do carnaval em um local que vive dele. Veja bem, não se tratam de “meros foliões” lamentando a ausência de mais uma festividade, pelo contrário, são pessoas que respiram aquela cultura e dela tiram seu sustento financeiro e espiritual. Seus relatos não soam insensíveis diante de um cenário de mortes, porque não lamentam o cancelamento de uma festa, mas sim de uma manifestação cultural. Alguns entrevistados, inclusive, traçam paralelos históricos entre os acontecimentos do presente retratado e de 100 anos atrás, nos lembrando da nossa própria herança cultural. Balanceando informações com desabafos pessoais, o longa consegue evitar simultaneamente o didatismo e o sentimentalismo fácil.

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Próximo do terço final, a pandemia é descrita como uma quarta-feira de cinzas que durou mais de 1000 dias. Logo em seguida, o carnaval olindense/recifense retorna e traz consigo as cores de volta para a tela. Seus tons são revestidos de novos significados, simbolizando a alegria retornando, a espera recompensada e, talvez o mais importante, a cultura imortal, sobrevivendo sua segunda pandemia, algo imaterial existente muito antes de todos nós e capaz de perdurar pelas gerações futuras. Arte feita pelo povo e para o povo.

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
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