dom, 14 junho 2026

Crítica | Fanon

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Fanon é uma cinebiografia que retrata um período específico da vida do personagem título, Frantz Fanon, médico psiquiatra francês a trabalho na Argélia, onde se alia aos revolucionários na luta pela independência do país, após presenciar as violências perpetradas pelos colonos. Ao contrário do formato que convencionou-se chamar de “biografia Wikipédia”, esse filme escolhe um recorte da história do biografado para evidenciar seu papel como revolucionário, invés de retratar toda sua trajetória desde o nascimento até a morte. O foco não é o personagem em si, mas sim sua participação política naquele momento histórico, uma decisão que teria sido bastante acertada, soubesse o diretor aproveitá-la.

O realizador, Jean-Claude Barny, se parece nada preocupado com a construção da imagem cinematográfica, e mais interessado em narrar os temas centrais de sua obra – de maneira bem expositiva e nada sútil. Até pode existir beleza na expositividade e/ou falta de sutileza, a depender de como esses discursos são trabalhados e inseridos dentro de um filme – um exemplo recente é o monólogo de Barbie. O problema é justamente quando o assunto retratado, por mais relevante que seja, se torna a única sustentação de um longa, sem mais nada a oferecer.

Não há um único plano minimamente criativo, tudo é filmado da maneira mais sem graça e planificada possível e até os atores aparentam estar entediados em cena. O diretor desperdiça oportunidades de criar suspense, por pura incapacidade de trabalhar o escalonamento da tensão. A solução, então, é apelar para o choque, mas como ele também não sabe utiliza-lo, acaba soando gratuito. Reitera-se o problema não é querer chocar e não saber como fazer isso. As cenas de violência – psicológicas e físicas – incomodam mais pelo mau gosto com que são usadas. Até a questão da luta do personagem principal, que deveria ser o centro da narrativa, é mal explorada. Seu envolvimento é sempre mostrado com certa racionalidade e apatia, ele fala constantemente sobre raiva, pulsão e revolta, mas ator e diretor não conseguem transmitir nada disso.

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A falta de timing e a inabilidade de traduzir sentimentos em imagens, faz com que as emoções sejam só teóricas, e não extraídas genuinamente de quem assiste. Ficamos sim incomodados com as práticas de racismo, torturas, mortes e desaparecimentos, da mesma forma que ficaríamos caso estivéssemos lendo sobre em um jornal ou um livro, não há o aproveitamento da linguagem do cinema para construir essas sensações.

Assim, as mais de duas horas de duração alternam-se em um looping infinito de mostrar as violências coloniais, e em seguida acompanhar o protagonista ou algum outro rebelde explicando o quanto aquilo é errado. Até os discursos revolucionários são declamados monotonamente, como se a força das palavras dispensasse quaisquer esforços extras dos atores proclamando-as, mais uma prova de sobrevalorização do texto em detrimento da dramaticidade cinematográfica.

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
Fanon é uma cinebiografia que retrata um período específico da vida do personagem título, Frantz Fanon, médico psiquiatra francês a trabalho na Argélia, onde se alia aos revolucionários na luta pela independência do país, após presenciar as violências perpetradas pelos colonos. Ao contrário do...Crítica | Fanon