seg, 8 junho 2026

Crítica | Obsessão

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Dirigido por Curry Barker – diretor do próximo remake de ‘O Massacre da Serra Elétrica’ -, ‘Obsessão’ acompanha Bear e Nikki em uma relação marcada por dependência emocional, desejo e autodestruição. O longa rapidamente chamou atenção nas redes sociais justamente pela forma como utiliza elementos do thriller psicológico para construir uma experiência muito mais atmosférica e sensorial do que necessariamente narrativa. Entre sombras, silêncios e uma fotografia extremamente intimista, o filme encontra sua identidade ao transformar obsessão afetiva em horror emocional. O longa é estrelado por Michael Johnston e Inde Navarrette, dois atores em início de carreira no cinema.



Bear (interpretado por Michael Johnston) é apaixonado pela sua colega de trabalho Nikki (interpretada por Inde Navarrette). Após fazer o pedido que ela o amasse “mais que qualquer outra pessoa no mundo todo”, o seu desejo acaba virando um pesadelo.

A primeira coisa que chama a atenção é que ‘Obssessão’ entende muito cedo que sua força não está necessariamente na história que está contando, mas na forma como escolhe olhar para ela, algo muito raro considerando os filmes de terror atuais em sua grande maioria. E talvez seja justamente aí que Curry Barker encontre algo tão interessante dentro de um filme que poderia facilmente cair em um thriller genérico sobre uma obsessão romântica. A câmera não é apenas um instrumento narrativo, mas ela se transforma numa presença constante, quase numa consciência silenciosa, acompanhando a deterioração daqueles personagens. Existe algo profundamente voyeurístico em como o filme observa Bear e Nikki, mas ao mesmo tempo há também uma sensação simbólica, como se estivéssemos vendo não exatamente os personagens e sim aquilo que existe escondido dentro deles.

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Gosto de pensar que a fotografia é, sem dúvida, o elemento mais forte do filme. Baker, junto com o diretor de fotografia, Taylor Clemons, compreende como utilizar luz e sombra não apenas para criar atmosfera, mas para comunicar uma identidade artística. Nikki frequentemente surge parcialmente encoberta pela iluminação, com o rosto mergulhado em escuridão enquanto apenas os olhos permanecem visíveis, brilhando dentro do quadro como algo artificialmente vivo. É uma escolha visual extremamente simples, mas não parece apenas uma mulher sendo filmada. Parece uma ideia ocupando um corpo, um desejo tomando forma física.

Créditos: Universal Pictures/Blumhouse Productions

Obsessão’ é menos sobre amor e mais sobre projeção. Sobre o quanto o desejo distorce pessoas até que elas deixem de enxergar umas às outras como indivíduos reais. Nikki não existe completamente como pessoa aos olhos de Bear, assim como Bear também vai deixando de existir como indivíduo dentro daquela relação. O filme trabalha constantemente essa sensação de apagamento identitário, como se o relacionamento consumisse gradualmente qualquer traço de individualidade até restarem apenas duas dependências emocionais se alimentando mutuamente. A grande pergunta que surge nos relacionamentos é se haverá uma “chama acessa” depois da lua de mel do início de um namoro?

O mais interessante é que Barker evita transformar isso em algo excessivamente verbalizado. O filme confia muito mais na imagem do que nos diálogos. E isso funciona justamente porque existe uma direção visual extremamente consciente daquilo que quer transmitir. Há momentos em que a câmera permanece distante, observando os personagens como se estivesse presa num estado de impotência. Em outros, ela invade os espaços de forma sufocante, movimenta de forma lenta, criando uma intimidade desconfortável que aproxima o espectador daquela espiral emocional.

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Essa dinâmica também se fortalece muito pelas atuações centrais. Michael Johnston interpreta Bear com uma introspecção quase melancólica, como alguém constantemente à beira de desaparecer dentro de si mesmo. Existe uma passividade em sua presença que ajuda a construir essa ideia de alguém emocionalmente vulnerável, alguém que confunde afeto com necessidade. Já Inde Navarrette entrega uma Nikki que oscila entre fragilidade e ameaça de maneira extremamente eficiente.

E talvez seja exatamente por isso que as cenas finais possuem tanto impacto.

A sequência do suicídio não funciona apenas pelo choque do acontecimento em si, mas sim pelo que ela simboliza dentro daquela dinâmica inteira. O filme transforma o ato numa conclusão inevitável de uma relação construída sobre dependência emocional extrema, mostrado pela metáfora clara do “desejo” ao extremo. Existe algo profundamente desconfortável em perceber como o filme associa amor e autodestruição de forma tão íntima. Como um retrato cruel de relações onde sofrimento passa a ser confundido com intensidade.

Inclusive, o horror da obra talvez esteja justamente no reconhecimento. Na percepção de que aquelas dinâmicas não são irreais. O filme trabalha obsessão afetiva de uma forma muito humana, muito próxima, sem cair na caricatura do “casal insano” que tantos thrillers psicológicos costumam utilizar. Existe uma dor genuína na maneira como aqueles personagens tentam desesperadamente preencher vazios emocionais um no outro. E quanto mais tentam, mais destroem a si mesmos.

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Existe também um cuidado muito interessante no uso do silêncio também. Muitas cenas parecem suspensas num vazio desconfortável, como se o próprio ambiente estivesse observando os personagens em silêncio. Isso fortalece ainda mais essa sensação de presença metafísica constante que atravessa o filme inteiro.

No fim, Curry Barker entrega um thriller psicológico que funciona muito mais como experiência emocional e sensorial do que como narrativa tradicional. E talvez seja justamente isso que torna “Obsession” tão interessante. Ele não quer apenas contar uma história sobre obsessão. Ele quer fazer o espectador sentir o peso dela, habitar aquela confusão emocional, perceber como desejo e destruição podem lentamente começar a ocupar o mesmo espaço até se tornarem praticamente indistinguíveis.

‘Obsessão’ é um thriller psicológico que encontra sua força justamente na maneira como transforma desejo e dependência emocional em horror. Curry Barker utiliza fotografia, silêncio e atmosfera para construir uma experiência sufocante, onde amor e autodestruição lentamente passam a ocupar o mesmo espaço, resultando em um filme desconfortável, íntimo e emocionalmente pesado.

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Rui Filho
Rui Filhohttp://estacaonerd.com
Recifense, cinéfilo e estudante de Cinema desde 2020, graduando em Publicidade e Propaganda. Apaixonado por arte, amante dos esportes, curioso sobre tudo e sempre em busca de algo novo para assistir.
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