Em um Brasil distópico, pessoas são selecionadas pelo governo para provar perante ao público da internet que são bons cidadãos e merecem continuar vivendo, através de debates onlines, nos quais discutem seu papel na sociedade com base no quanto trabalham e contribuem de impostos, seu papel na família e na igreja e sua “utilidade” para o país. Essas características são usadas para definir o valor de uma vida humana e eliminar quem menos tiver a oferecer. Até que um participante muda as regras jogos e subverte sua própria lógica em benefício próprio, após descobrir uma espécie de brecha em seu funcionamento.

O filme utiliza da ficção para retratar um comportamento cada vez mais real na era da pós verdade da internet, mostrando como essa lógica alimenta o ego de pessoas e dá voz a quem souber mentir com mais carisma. Tudo é feito em prol do espetáculo, mesmo que isso culmine em uma trilha de corpos deixados pelo caminho. O longa mostra que por mais extrema que essa situação aparente ser, se continuarmos normalizando certos comportamentos e dando palco para determinados perfis caminhamos para um futuro não tão diferente daquele.
A maior parte das cenas se passam em um pequeno apartamento fechado que se torna ainda mais claustrofóbico quando os equipamentos do governo passam a ocupar boa parte do já restrito espaço. A sensação de confinamento do personagem, que se sente preso dentro daquele sistema do qual não consegue escapar, é sentida diretamente pelo público, graças a forma como a direção explora o ambiente apertado. As luzes fortes oscilando entre o verde e o vermelho também reforçam a opressão e ajudam a comunicar o desespero, por meio da imagem e não só do texto. É a diferença entre ouvir algo e entender qual emoção deveria ser sentida e de fato senti-la sensorialmente.

Nesse sentido, o diretor consegue driblar bem a expositividade ao longo de todo o projeto. Ele nos joga dentro do filme sem oferecer maiores explicações sobre os pormenores que levaram àquela condição absurda, o contexto histórico é brevemente oferecido no início e mais para frente as regras dos debates são explicadas em uma propaganda televisiva, que apesar de didática, é bem humorada o suficiente para não soar enfadonha. O controle da narrativa já não funciona tão bem para lidar com tantos debates, apesar da proposta ser acompanhar a progressão da loucura, algumas passagens acabam por ficar repetitivas, diluindo a tensão que funcionava tão bem nas cenas inaugurais.


