dom, 14 junho 2026

CINE PE | MAPAS

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A memória é indissociável do cinema, e também de qualquer expressão artística, assim como o desenho arquitetônico que define os contornos de uma cidade. Não a toa Sérgio, um arquiteto baiano recém chegado em Brasília, se encontra perplexo com a amnésia coletiva da população local em relação a história de um lugar tão famoso justamente por conta de sua arquitetura. Enquanto os moradores agem como se a capital brasileira não existisse antes de 1960, as ruínas revelam um passado bem mais longínquo.

Conhecida como a “cidade planejada”, Brasília foi um projeto arquitetônico e político idealizado para deliberadamente excluir dos espaços centrais aqueles considerados como “indesejados”, incluindo os fornecedores da mão de obra responsável por tirar os desenhos de Oscar Niemeyer do papel, erguendo algo ao qual não teriam acesso. Marginalizar essas pessoas é soterrar com elas aquilo que a classe dominante pretende esquecer para não precisar conviver diariamente com as consequências da exploração por eles promovida.

As ruas largas com pouco – ou nenhum – espaço para pedestres deixa claro se tratar de um lugar para quem tem carro. A alternativa encontrada pelo protagonista é percorrer longas distâncias de bicicleta, em uma cidade marcada pelo clima seco. É assim que ele conhece Júlia, ao ser acidentalmente atropelado por ela – uma mulher branca, privilegiada, que não só tem condições de andar de carro, como também insiste em pagar todos os Ubers até a bicicleta do rapaz sair do conserto. O infortúnio marca o começo de uma improvável conexão, repleta de contrastes sociais, raciais e econômicos. A dualidade dos personagens principais reflete as contradições da própria Brasília.

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Após o contato inicial, os dois descobrem o desaparecimento de uma jovem ativista e se juntam para tentar reencontrá-la, explorando cenários menos convencionais da capital federal. As paisagens do longa são permeadas por fontes de água que inundam a tela, opondo-se a noção de secura brasiliense. A mesma água de cura e hidratação é usada para afastar e isolar para dos habitantes. Ao passo que os espaços urbanos são filmados de forma quase geométrica, enfatizando seu engessamento frio, a parte “esquecida” da municipalidade é filmada com a fluidez da natureza que, a princípio, esconde segredos, mas está disposta a revelá-los para quem adentrá-la.

O diretor Rafael Lobo trabalha bem esses aspectos sensoriais, pintando sua versão Brasília, através da sobreposição de mapas, fotografias e obras de arte moderna. Porém, em algum momento, infelizmente decide que a experiência dos sentidos não era suficiente e passa a se perder em subtramas aborrecidas sobre dramas familiares e desaparecimentos. Além de não combinarem com o que parecia ser a proposta original do filme, ainda não se desenvolve de maneira suficientemente interessante. A opção por adotar uma narrativa mais tradicional para talvez comunicar-se com um público maior, acaba debilitando aquilo que tinha de mais forte: a vibe.

A partir daí, o longa se perde cada vez mais, tentando dar excessivo sentido para todos seus simbolismos, passa a repetir seus códigos visuais, como as espirais, mapas, imagens de exames e fotos. A redundância vira, nesse caso, inimiga da sutileza e a obviedade desgasta a beleza da obra. A ambiência daquela municipalidade e seus segredos era um caminho muito mais interessante a ser percorrido do que um mistério quase hitchcockiano.

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
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