Steven Spielberg não é estranho à temática de extraterrestre, já tendo dirigido três – agora quatro – longas sobre criaturas de outro planeta, inclusive seu cinema é largamente responsável por incutir no imaginário popular a aparência de um alienígena como um ser cabeçudo, com olhos esbugalhados, de braços e pernas finos. Mais de 20 anos depois de Guerra dos Mundos, ele retorna para explorar mais uma vez esse assunto que lhe é tão querido, agora com a maturidade pessoal e cinematográfica adquirida ao longo de tantos anos de carreira. Engana-se, entretanto, quem acredita terem se esgotado as boas ideias do cineasta para tratar do tema, que ainda é capaz de render ótimas histórias em sua mão, como provou Dia D.
Se a princípio me parecia inoportuno revelar sobre o que se tratava esse novo filme, aos poucos compreendi o motivo do segredo não ser assim tão necessário, afinal os ETs são apenas uma parte do enredo, sendo a humanidade o foco da narrativa que está mais preocupada para olhar dentro do nosso planeta do que para fora dele. Somos nós o principal objeto de interesse das lentes de Spielberg, que se mostra mais interessado na maneira como iremos reagir à presença desses seres do que na existência deles em si.

Mesmo com todas as cartas na mesa, o filme insiste em um suspense, construindo bases para uma suposta grande revelação no terceiro ato que nunca ocorre, nem precisa ocorrer. O mais importante é a condução do mistério e como os seres humanos lidam com ele, o conteúdo da informação fica em segundo plano em comparação com as reações das pessoas, que sempre foram o verdadeiro cerne de todos os bons – e os não tão bons – dramas spielberguerianos. Nesse sentido, é relevante, inclusive, a escolha de uma jornalista para ser a personagem central de uma trama tão centrada na divulgação da informação, se ela deve – ou não – ser compartilhada, como ela deve ser levada ao público e quais serão as consequências causadas pela sua disseminação.
Um diretor tão habituado a lidar com aliens é também um expert em retratar emoções bastante terrestres, e justamente por compreendê-las tão bem é igualmente capaz de manipulá-las, para causar apreensão, provocar risos e extrair genuínas lágrimas – não através de artifícios gratuitos, mas sim da simplicidade de um melodrama bem conduzido, tal qual os grandes mestres da old Hollywood que o inspiraram. Em uma época de tanto cinismo, Spielberg resgata o otimismo pueril tão característico do seu cinema deliciosamente escapista, com a ingenuidade de quem ainda acredita no poder do amor e da empatia para solucionar conflitos. Dia D não deixa de ser sobre fé, não só a tradicional, mas principalmente a fé do cineasta nos próprios seres humanos.

A câmera passeia, gira, explora ambientes e dá closes exagerados nos rostos dos personagens como se pudesse acessar sua psique só de olhar dentro dos olhos tão expressivos de seus protagonistas vividos por Josh O’Connor e Emily Blunt, dois atores nascidos para o universo desse diretor. Os olhos bondosos de O’Connor transmitem a pureza infantojuvenil que permeia as obras desse realizador, enquanto o histrionismo e a fisicalidade de Blunt caem como uma luva naquele universo melodramático.
Spielberg mistura ação – com direito a uma excelente sequência de perseguição logo nos minutos inaugurais – comédia, ficção científica, thriller e drama, com uma habilidade única de alguém com tantos anos de experiência. Já tendo transitado por todos esses gêneros, ele sabe combiná-los, sem perder a essência de nenhum deles.


