A quem pertence o direito de sonhar? Como nossas realidades sociais moldam nossos sonhos? E a partir de qual ponto esses sonhos se transformam em metas capazes de mudar nossas realidades sociais? A Fabulosa Máquina do Tempo não tem a pretensão de responder definitivamente nenhum desses questionamentos, mas essas reflexões me ocorreram enquanto assistia ao filme na 30a edição do CINE-PE. Em uma das sessões mais engraçadas do festival, pudemos conhecer a vida de algumas garotas de Guaribas, no sertão do Piauí, cidade onde foi implantado o programa Bolsa Família pela primeira vez.
A política pública assistencialista, iniciada em 2003, transforma gradualmente, ao longo desses vinte anos, as vidas das mulheres em uma localidade anteriormente marcada pela pobreza extrema. Agora, longe de ter todos os seus problemas magicamente resolvidos, as filhas dessas mulheres podem, ao menos, começar a compreender seu lugar no mundo, através do acesso a educação. Ainda inseridas em uma cultura patriarcal, enfatizada pela religião evangélica dominante do lugar, essas meninas iniciam, por meio de brincadeiras, um processo de pensar sobre o machismo estrutural que as circunda. Conforme aprendem sobre papéis tradicionais de gênero, dentre outras questões femininas, como a menarca, as garotas processam seus sentimentos durante brincadeiras lúdicas repletas de criatividade.

Nesse contexto a sétima arte ganha especial relevância, não só por ser a mídia pela qual essa história chega ao público, como também por ser a forma encontrada por elas para encenarem suas realidades, melhor compreendê-las e alterar aquilo que não mais faz sentido. Assumindo o protagonismo de suas narrativas, mas além disso, a direção plena de seus futuros, mediante assimilação do passado das mulheres que vieram antes delas. O cinema é a real máquina do tempo do título e permite àquelas garotas acessarem a si mesma, enquanto nós simultaneamente, as acessamos.


