ter, 16 junho 2026

Crítica | Pela Metade

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Algumas pessoas entram na nossa vida e deixam marcas. Outras deixam crateras.

Nos seis episódios de Pela Metade (Half Man), Richard Gadd acompanha a relação entre Niall e Ruben ao longo de décadas. Os dois se conhecem na adolescência, e o que começa como proteção se transforma em uma ligação marcada por medo, dependência e violência. O tempo passa, novos relacionamentos surgem, cidades mudam, mas aquela relação continua interferindo na vida adulta dos dois.

Depois de Bebê Rena, seria previsível que Gadd repetisse a fórmula que ampliou sua visibilidade na televisão. Pela Metade segue outro caminho. A série é menos direta, mais difícil de assistir e menos interessada em agradar. Se a obra anterior tinha algo de confissão pública, esta se volta para homens que crescem sem saber falar sobre medo, vergonha e afeto.

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A abertura anuncia o conflito. Dois homens se encaram em um celeiro escuro. Um deles está vestido para um casamento. O outro parece pronto para uma briga. A narrativa volta trinta anos no tempo para mostrar como eles chegaram ali.

Niall cresce como um garoto que aprende cedo a desaparecer. Sofre bullying, evita confrontos e tenta não chamar a atenção. Ruben aparece como seu oposto. É impulsivo, agressivo e reage a quase tudo como ameaça. Mesmo assim, a aproximação entre eles faz sentido. Ruben afasta os agressores de Niall, oferece proteção e dá ao garoto uma sensação de pertencimento que ele não encontra em outro lugar. Por algum tempo, a amizade parece possível.

A série entende que relações destrutivas raramente começam como destruição. Elas podem nascer de necessidades reais, de carência e da sensação de finalmente ser visto por alguém. O problema surge quando afeto, dependência, medo e violência passam a ocupar o mesmo espaço. Depois disso, separar uma coisa da outra se torna cada vez mais difícil.

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Ruben funciona porque não é tratado como vilão simples. Ele também não aparece como alguém que manipula todos ao redor de forma calculada. É um homem que aprendeu a responder ao mundo pela raiva e não reconhece outras formas de lidar com o que sente. A série não o absolve, mas evita transformá-lo em caricatura. O menino assustado e o adulto violento existem no mesmo personagem.

Gadd faz perguntas difíceis sem transformar a série em explicação psicológica. O que acontece quando um garoto cresce acreditando que vulnerabilidade é fraqueza? Quanto das escolhas adultas ainda vem dos medos da adolescência? Em que momento alguém deixa de ser apenas vítima da própria história e passa a responder por ela?

A escrita trabalha mais pelo acúmulo do que pela revelação. Pequenos gestos, silêncios longos, explosões de violência e decisões ruins se somam até formar o retrato de duas vidas presas à mesma relação.

Jamie Bell está muito bem como Niall adulto. O personagem parece observar a própria vida de longe, sempre com atraso em relação ao que sente. Richard Gadd faz de Ruben uma ameaça instável sem transformá-lo em explosão constante. Às vezes, uma pausa longa ou uma mudança no rosto já altera a tensão da cena.

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As versões jovens também sustentam parte importante da série. Mitchell Robertson e Stuart Campbell tornam crível a aproximação entre Niall e Ruben. Isso dá mais peso ao desgaste posterior da relação.

Visualmente, Pela Metade acompanha a sensação de confinamento dos personagens. A fotografia evita romantizar o sofrimento. Casas, corredores e quartos parecem estreitos demais para o que está acontecendo ali. Em vários momentos, a série mostra pessoas tentando fugir de algo que levaram consigo a vida inteira.

Nem tudo tem a mesma força. Algumas personagens femininas recebem menos desenvolvimento do que poderiam. Certos monólogos têm uma teatralidade que nem sempre se ajusta à televisão. São problemas perceptíveis, mas não anulam o efeito da série.

O que fica depois do último episódio não é apenas uma história sobre amizade, dependência, amor ou violência. É a imagem de pessoas perseguidas por versões antigas de si mesmas. A masculinidade aparece como algo aprendido cedo, repetido sem exame e transmitido como dano.

Poucas séries recentes foram tão duras ao observar esse tipo de relação. Menos ainda fizeram isso sem retirar a complexidade dos personagens, mesmo quando eles cometem seus piores atos.

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