seg, 22 junho 2026

Crítica | Um Mundo Belo e Triste

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Se tomarmos o filme apenas por seu título, a dicotomia existente sublinha não apenas a narrativa em que o projeto está imerso, mas também a própria relação à qual seus protagonistas estão sujeitos. Contudo, antes de avançarmos no texto crítico, situemos a história narrativamente. A trama se passa em Beirute em, pelo menos, quatro tempos distintos. Nino e Yasmina nasceram com a diferença de um minuto, no mesmo hospital, em meio a um bombardeio. Na infância, iniciam um romance que logo termina quando Yasmina vai embora. Já adultos, após um acidente, os dois se reencontram para viver a história de amor que foi interrompida.

O leitor já deve notar, apenas por essa sinopse, que o amor entre os personagens está diretamente relacionado com o tempo em que eles existem: bombardeios, acidentes, crises financeiras… tudo isso é pano de fundo para uma história de amor com todos os toques de um melodrama folhetinesco. Ou seja, o casal precisará enfrentar não apenas o mundo externo, este completamente desequilibrado (ou, como chamamos no meio da pesquisa sobre melodrama, um mundo desencantado), como também suas próprias visões de mundo. Nino, com um certo jogo de cintura, leveza e crença nas estrelas; Yasmina, pragmática, cínica perante o mundo. Evidentemente, tal relação leva os dois a um meio-termo, a exatamente uma possibilidade de equilíbrio.

Toda esta introdução, pensando em termos narrativos, desenha um filme que abraça todos os clichês de um folhetim clássico. O mundo triste e bonito — duas características básicas do melodrama — está delineado em um roteiro que deixa claro que seu desejo, acima de qualquer coisa, é promover o amor como totem do mundo desencantado. Só através dele, junto a ele, é que as mazelas do mundo podem ser superadas. É um discurso edificante que atrai audiências pela palatabilidade de sua narração.

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Mas é justamente na forma como trata sua imagem que o filme de Cyril Aris se enfraquece. O diretor opta por um estilo de imagem muito associado ao cinema indie estadunidense, isto é, imagens com pouca profundidade de campo, uma estética mais lavada, flashes de luz e sons que se entrecortam com cenas (a sequência final é o ápice dessa estética). Em determinado momento, o longa-metragem parece mais um produto genérico, com uma certa imposição estética que tenta falar sobre o mundo atual. O que isso deixa evidente é um certo receio em abraçar o folhetim com todo o seu exagero, optando por uma poesia que, por vezes, soa muito mais como uma ferramenta de aceitação dos filmes em festivais independentes de cinema.

E, deixo aqui claro, isso não é em si um problema, já que todo cineasta deseja que seu filme seja visto e comentado. Contudo, o problema reside em quando fica claro que o desejo por uma história de amor simples não está, necessariamente, nela nem no exercício de gênero, mas em um desejo de pertencer a uma prateleira bem-posta dos festivais. O filme de Aris, então, posiciona-se dentro de um paradoxo. Ele não esconde seu desejo pelo melodrama, ao mesmo tempo que precisa diluir muito do seu sentimento em uma imagem que ora funciona como vetor de uma estética bem estabelecida no ocidente cinematográfico, ora como uma pretensão poética que falha em, justamente, fazer poesia.

O filme insere-se em um agrupamento cada vez maior que esconde seu sentimento por trás de uma poesia — foi assim com Hamnet, por exemplo — e isso — aqui falo não apenas como crítico, mas como espectador (ainda que a separação entre eles seja impossível) — talvez acentue justamente aquilo que Aris desejava pontuar. Ao esconder-se, ainda que pouco, atrás de uma estética, ele aponta que o cinismo do mundo ainda se sobressai em relação ao sentimento.

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