seg, 6 julho 2026

Crítica | Quinze Dias

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Felipe, um adolescente gay e gordo, vítima constante de bullying e assolado por problemas de autoimagem, aguarda ansiosamente a chegada das férias escolares, quando poderá, finalmente, isolar-se em seu quarto para assistir filmes e séries, sem precisar conviver com outras pessoas de sua idade. Por ironia do destino, contudo, sua mãe decide hospedar, em sua casa, o filho da vizinha, para que ela possa viajar com o marido.

O garoto, Caio, com quem Felipe teve uma profunda amizade quando pequeno, agora é bonito, popular, atlético e aparenta ser seu extremo oposto em todos os sentidos. As personalidades contrastantes geram, prontamente, uma animosidade inicial entre os dois. Tomados pela impulsividade típica da adolescência, eles acreditam não terem nada em comum e prontamente descartam qualquer possibilidade de convivência pacifica.

Para além dos gostos, hobbies e estilos diferentes, Felipe enxerga em Caio seus colegas de escola nada gentis com ele, temendo a tão acostumada rejeição, ele ergue suas barreiras e prefere ser o primeiro a rejeitar, como se o isolamento por iniciativa própria fosse de alguma forma menos doloroso. Na visão de Caio, Felipe é apenas grosseiro – nas palavras dele “um babaca” – simplesmente porque não consegue compreender os motivos que o levaram a estar tão na defensiva.

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As faltas de comunicações típicas de comédia romântica adolescentes hollywoodianas são também características intrínsecas ao período da vida dos personagens. É fácil olharmos para eles com olhos adultos e pensar no quanto uma conversa franca solucionaria tudo, mas se até nós enfrentamos dificuldades na hora das conversas difíceis, imagine dois jovens de 15/16 anos. Se em Me Chame Pelo Seu Nome, Elio tem dúvidas se seria melhor falar ou morrer, aqui Felipe tem a inabalável certeza de que a morte seria preferível.

Conforme avança a trama, eles se descobrem, aos trancos e barrancos, serem mais semelhanças do que imaginavam, porém além disso, percebem o quanto suas diferenças não são assim tão graves e não necessariamente os distanciam, ou não deveriam distanciar, enquanto seres humanos. Uma (in)esperada amizade começa a surgir entre os garotos e, a partir dela, sentimentos românticos afloram.

Ainda que a estrutura narrativa evidenciasse desde logo a provável aproximação, e até mesmo romance pudesse ser presumido até mesmo por quem não acompanhou nada do material de divulgação – como foi meu caso –, a progressão dos acontecimentos é tão divertida, que mesmo se dando de forma óbvia, clichê e, por vezes, advinda de situações bastante forçadas, acaba sendo deliciosa de acompanhar. Há valor na simplicidade com que são apresentadas em tela as vicissitudes das vidas dos personagens. O previsível também pode ser belo, principalmente nas mãos de um diretor apto a brincar com nossas expectativas.

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Não é como se a história empacasse enquanto espera o romance principal acontecer. Pelo contrário, a fluência se dá tanto nos momentos mais corriqueiros como as quartas-feiras, quando se reúnem para assistir musicais e irrompe um debate sobre as cenas de danças nesse tipo de filme, quanto em passagens mais dramáticas, nas quais questões sobre preconceito e sexualidade são abordadas de forma consciente, sem transformarem seus personagens em figuras meramente panfletárias. Suas lutas importam, mas não os definem, eles continuam sendo pessoas, inclusive com o direito de serem imperfeitos.

Até os coadjuvantes e suas subtramas são bem encaixados, sem que roubem mais atenção do que o necessário, nem se tornem meros planos de fundo. Destaca-se a entrega de Débora Falabella no papel de mãe compreensiva, com um limitado tempo de tela, em um filme não tão longo, ela consegue imprimir personalidade para a personagem de apoio, transformando-a em uma mulher multifacetária.

Além do cuidado estético, o humor capaz de extrair gargalhadas do público por mais de uma vez, é sabiamente empregado para evitar transformar um longa-metragem em um slogan de campanha ou resumi-lo em uma tagline. Apesar dos diversos temas abordados, ele não se resume a um “filme de gay” ou “filme de gordo”. Em uma das mais tensas passagens, Felipe e Caio são vítimas de homofobia e reagem violentamente, a briga física termina com eles sendo salvos pela dança da carreta furacão. Como o diretor trabalha no limite da piada, com um domínio meticuloso de timing, a graça da situação não tira o peso do abuso psicológico. É emblemático finalizar essa cena com os homofóbicos confusos caídos no chão e os dois se divertindo na carreta, o riso deles não apaga a brutalidade, mas mostra a força de quem continua rindo e ri por último.

A leveza juvenil acaba sim simplificando alguns debates e criando resoluções quase preguiçosas ou, ao menos, facilitadas. Em especial, ao lidar com homofobia no conflito final. Contudo, não chega a comprometer um projeto tão redondinho e até casa com aquilo que havia sido apresentado como proposta da obra.      

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
Felipe, um adolescente gay e gordo, vítima constante de bullying e assolado por problemas de autoimagem, aguarda ansiosamente a chegada das férias escolares, quando poderá, finalmente, isolar-se em seu quarto para assistir filmes e séries, sem precisar conviver com outras pessoas de sua idade....Crítica | Quinze Dias