seg, 3 agosto 2026

Crítica | Snoopy Apresenta: Não Há Nada Como a Nossa Casa, Snoopy

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Snoopy perdeu a casa. Deixa eu repetir, porque a frase merece o peso todo: Snoopy. Perdeu. A casa. Vendida num bazar de garagem, por engano, por um preço provavelmente ridículo, porque é claro que ninguém para pensar duas vezes antes de vender algo que parece uma caixa de tralha de madeira pintada de vermelho. Se isso não te comove nem um pouquinho, sugiro rever suas prioridades na vida.

A casinha, para quem esqueceu, não é só onde o cachorro dorme. É avião de caça na guerra imaginária contra o Barão Vermelho, é sofá de couro para bater papo com o Woodstock, é um objeto que guarda mais coisas lá dentro do que qualquer apartamento estúdio em São Paulo deveria conseguir guardar. Tirar isso do Snoopy é basicamente arrancar o Batman da Batcaverna e mandar ele resolver crime de carro alugado.

E aí entra Charlie Brown, que veste o chapéu de detetive com a mesma seriedade que veste tudo na vida (ou seja: seriedade total, ridiculamente comovente), e sai atrás da casinha desaparecida, enquanto sua irmã Sally continua vendendo os pertences da família com o entusiasmo de quem descobriu que tem alma de leiloeira. Ela vende rápido demais e sem dó; o irmão não consegue largar nada por puro sentimentalismo, e é exatamente esse contraste bobo que faz o Snoopy continuar funcionando depois de setenta e tantos anos: ninguém muda, todo mundo é reconhecidamente eles mesmos, e ainda assim dá para rir e se emocionar com isso na mesma cena.

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Tem uma música nova, composta especialmente para o especial, numa clara reverência ao Vince Guaraldi (não vou repetir a letra aqui, mas ela cumpre o papel de deixar qualquer adulto com uma saudade meio inexplicável de coisas que nem lembrava que sentia falta). Tem Lucy chamando gente de trapalhão. E tem Snoopy sendo, mais uma vez, o único personagem capaz de transformar drama doméstico em tragédia grega sem falar uma palavra sequer.

Não é grande arte. Também não precisa ser — é só mais um dia na vida de um cachorro filósofo e sua turma de crianças com problemas existenciais precoces, e às vezes é exatamente disso que a gente precisa numa sexta à noite.

Está na Apple TV+, para quem quiser chorar por causa de uma casinha de cachorro.

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