Não são poucos filmes, ao longo da história do cinema, que se passam em locais fechados. Podemos voltar a Doze Homens e uma Sentença, de Sidney Lumet, ou O Anjo Exterminador, de Luís Buñuel. São em lugares fechados que algumas crises se instalam, seja de convivência, seja de natureza. Mas podemos indicar temporalmente que esse tipo de filme ganhou uma sobrevida no período pandêmico, em que a ideia de ficar preso em casa ganhou proporções cinematográficas tanto afeitas ao realismo quanto também as questões fantásticas, de terror ou ficção cientifica.
Com a mesma intensidade que esses filmes chegaram aos streamings, eles também passaram a se repetir dentro de uma fórmula. Esse é o caso de A Última Casa, de Louis Leterrier, filme protagonizado por Wagner Moura e Greta Lee e que chegou a Netflix na última semana. “A chuva” é o estopim para que as pessoas fiquem presas em casa, enquanto seres não identificáveis rondam aquele espaço. Existe, no filme, uma ideia muito clara de absorver as questões familiares antes que as ameaças surjam.
Mas Leterrier trabalha cenicamente com uma esterilidade emocional e de encenação que o filme, em alguns momentos, flerta com um aspecto publicitário que nem mesmo Moura ou Lee conseguem escapar. Não demora muito para que o projeto se torne algo com cheiro de mofo, de algo que poderia ter sido lançado no volume inexplicável de filmes do gênero, que é colocado na prateleira do streaming apenas como um produto descartável.
Essa, aliás, é uma atitude comum para a Netflix e fica evidente dentro da própria construção cênica do filme. Não se constrói simpatia ou tensão pelos acontecimentos porque tudo soa calculado para alimentar o algoritmo e preencher o catálogo. O longa até tenta ensaiar reviravoltas e pontuar a narrativa com momentos projetados para chocar o espectador, mas nenhuma dessas tentativas impressiona. O fracasso desses sobressaltos acontece porque o filme não demonstra interesse real por absolutamente nada do que coloca em cena — nem pelas figuras humanas que habitam a casa, nem pela ameaça que os cerca.
Leterrier confunde tem um grande desinteresse visual. A fotografia, polida e pasteurizada, constrói um pavor parece higienizado. Moura e Lee, dois atores que costumam imprimir densidade a seus papéis, veem-se presos em um texto ralo e uma direção que prefere o nada. À medida que a narrativa se desenrola, os conflitos se acumulam pelo cumprimento de uma etapa formal até o desfecho.
O filme parece ter pressa em empilhar crises para fabricar um clímax, culminando em uma resolução que subestima abertamente a inteligência do espectador, como se a aceitação passiva de convenções gastas fosse o único engajamento exigido de quem assiste. Ao final da projeção, A Última Casa é a constatação do seu próprio destino: o de um produto descartável, como uma mercadoria com data de validade vencida que permanece esquecida na prateleira do streaming.


