Gosto de A Casa do Dragão desde o início, só que não do mesmo jeito em todas as temporadas. As duas primeiras tinham problemas reais de ritmo e algumas decisões estruturais questionáveis, como matar personagens interessantes cedo demais ou recastear boa parte do elenco no meio de saltos temporais de anos. Nesta terceira, a Dança dos Dragões finalmente para de fingir que é sobre dragões. É sobre gente tentando trocar poder por legitimidade na moeda errada e descobrindo o erro tarde demais para devolver o troco.
Os dois primeiros episódios chegam com um estrondo bem-vindo depois do ritmo quase letárgico da temporada anterior: traições, reviravoltas, batalhas e a morte de Jacaerys Velaryon (Harry Collett) já no início, seguida pela tão aguardada conquista de Porto Real por Rhaenyra (Emma D’Arcy). São episódios grandiosos, mas carregam a pressa de quem precisa resolver em poucos minutos o que originalmente seria o encerramento da temporada anterior. O resultado é uma abertura com cara de clímax, deixando os seis episódios seguintes com a tarefa ingrata de competir com um final que já aconteceu.

Rhaenyra vira rainha cedo, e isso permite que a temporada se concentre no problema que realmente importa: sentar no Trono de Ferro nunca foi a parte difícil. O complicado é continuar merecendo aquele lugar sem se transformar na pessoa que você passou a vida combatendo. Emma D’Arcy interpreta esse desgaste quase sem grandes gestos, deixando a rainha desabar por dentro enquanto tenta sustentar a postura por fora. Se o Emmy não vier depois desta temporada, vai ser mais um daqueles anos em que a Academia olha para uma atuação extraordinária e decide pensar em outra coisa.
Ao redor dela, outras mulheres também encontram novos espaços dentro da guerra. Helaena (Phia Saban) finalmente deixa de ser apenas a figura estranha que observa tudo de longe e ganha uma função decisiva na história. É um dos arcos mais bonitos e melancólicos da temporada justamente porque transforma uma personagem que sempre pareceu estar à margem em alguém fundamental para entender o destino dos Targaryen. Quem assistiu sabe do que estou falando; quem não assistiu vai ter que confiar em mim.
Alys Rivers (Gayle Rankin) também merece atenção. A personagem chega com uma presença que combina mistério e pragmatismo, funcionando como um contraponto interessante para Daemon e para a própria lógica de poder que domina a temporada. Ela não precisa explicar o tempo todo o que representa para chamar atenção. Basta estar em cena, observar e deixar os outros perceberem, tarde demais, que talvez ela saiba mais do que deveria.
O novo antagonista, Ormund Hightower (James Norton), chega tarde, mas traz uma ameaça diferente da que a série costuma oferecer. Sua força está na frieza calculada, na capacidade de perceber onde uma coroa ainda insegura pode ser pressionada. É um vilão que entende que, em Westeros, uma espada nem sempre é a arma mais eficiente.

Sharako Lohar (Abigail Thorn) tem menos sorte. A personagem aparece prometendo uma energia diferente, alguém disposta a agir enquanto o restante do elenco passa metade do tempo calculando seis movimentos à frente, mas a série nunca oferece tempo suficiente para transformá-la em algo além de uma presença divertida. É uma daquelas ideias que parecem maiores no papel do que conseguem ser na tela.
Matt Smith continua sendo um dos grandes prazeres da série. Daemon atravessa Westeros com a confiança de quem acha que sempre será a pessoa mais interessante da sala e, para o desespero geral, quase sempre está certo. O personagem também ganha uma trajetória mais introspectiva, que funciona melhor justamente quando a série abandona a necessidade de fazer dele apenas o príncipe caótico que entra em cena para resolver tudo na base da espada.
Nem tudo funciona. Algumas subtramas demoram demais para encontrar propósito, certos personagens novos ocupam espaço que poderia ter sido usado para aprofundar quem já conhecemos e a temporada ainda carrega uma sensação de estrutura remendada. Também haverá, inevitavelmente, discussão entre os leitores de Fogo & Sangue sobre as mudanças em relação ao livro, especialmente diante das divergências públicas entre George R. R. Martin e a produção. Mas adaptar uma crônica escrita como relato histórico nunca significou reproduzi-la página por página. A questão é saber se as mudanças encontram uma razão própria dentro da série, e nesta temporada algumas encontram, outras nem tanto.
No fim, o que sobra não são os dragões, embora eles continuem ótimos. São as pessoas dispostas a se destruir para sentar num lugar de onde possam comandá-los. Rhaenyra, Alicent, Helaena, Daemon e todos os outros continuam presos a uma guerra que transforma ambição em herança e trauma em estratégia.
Depois de duas temporadas em que eu frequentemente sentia que A Casa do Dragão estava tentando descobrir que série queria ser, esta finalmente parece saber a resposta. Ainda tropeça, ainda exagera e ainda tem uma capacidade impressionante de transformar seis episódios de história em algo que parece precisar de quinze. Mas, pela primeira vez, estou assistindo à Dança dos Dragões com a sensação de que talvez a série finalmente tenha aprendido a dançar.
A Casa do Dragão está disponível na HBO Max.


