qua, 19 agosto 2026

Crítica | Só por Uma Noite

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Temos a volta das comédias românticas, especialmente nos últimos anos, em peso. O diretor Will Gluck já conhece o gênero por ter dirigido ‘Todos Menos Você’ (2023) e ‘Amizade Colorida’ (2011). Desta vez, ele retorna com uma premissa absurda e estrelado por Monica Barbaro e Callum Turner

Para controlar a taxa de natalidade, o governo dos Estados Unidos proíbe que pessoas não casadas façam sexo. Com exceção de uma noite por ano. Com o grande momento chegando, Allie (interpretada por Monica Barbaro) e Owen (interpretado por Callum Turner) saem em busca de um(a) parceiro(a) para aproveitar a “noite do ano”.

Existe algo muito divertido em uma comédia romântica que sabe exatamente o absurdo da própria premissa. ‘Só Por Uma Noite’ parte de uma ideia completamente maluca, em que Nova Iorque se transforma durante algumas horas em uma espécie de território livre para solteiros em busca de sexo, mas utiliza isso para contar uma história extremamente tradicional sobre duas pessoas que se encontram, se perdem e tentam se encontrar novamente. É o clássico “romance farofa” colocado dentro de um apocalipse sentimental, e justamente essa contradição que faz o filme funcionar tão bem.

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A direção de Will Gluck entende que a premissa não precisa ser explicada além do necessário. O filme, junto com o repentino término do protagonista, simplesmente joga o espectador naquela Nova Iorque caótica, com pessoas desesperadas correndo pelas ruas, procurando parceiros, comprando preservativos e tentando aproveitar cada minuto antes que aquela noite termine. Existe uma transformação quase zumbi na cidade, como se todos estivessem contaminados por uma única necessidade imediata. A graça está justamente em observar uma situação absurda sendo tratada com uma naturalidade quase cotidiana. Mas, por trás da comédia, existe uma discussão interessante sobre a própria ideia de imediatismo. Todos precisam encontrar alguém, todos precisam conseguir alguma coisa, todos parecem ter pressa. O filme transforma em regra social aquilo que já existe de maneira muito presente nos relacionamentos atuais.

Créditos: Universal Pictures Brasil/Olive Bridge Entertainment

Nesse contexto, ‘Só Por Uma Noite’ consegue ser mais interessante do que sua própria premissa sugere. A busca imediata por prazer é levada ao extremo, mas não necessariamente para celebrá-la. Há uma crítica bastante clara a uma cultura de relacionamentos cada vez mais acelerada, em que aplicativos como Tinder transformaram o encontro em uma espécie de catálogo de possibilidades. Você escolhe, conversa, marca algo e espera que aquilo resulte rapidamente em alguma forma de satisfação. O filme pega essa lógica e transforma Nova Iorque inteira em um grande aplicativo de relacionamento durante uma única noite. Só que, no meio dessa corrida, Allie percebe que talvez não esteja procurando exatamente aquilo que todo mundo ao seu redor está procurando.

A personagem quer encontrar alguém para fazer sexo, mas também quer encontrar uma conexão. E essa contradição é construída muito bem através da relação com Owen. Monica Barbaro e Callum Turner funcionam muito bem juntos justamente porque existe uma naturalidade na troca entre os dois. Os olhares, os pequenos silêncios e principalmente a maneira como os personagens se observam dizem muito mais do que alguns diálogos poderiam explicar. Allie procura uma espécie de “príncipe”, como sua amiga encontrou, mas não necessariamente um príncipe no sentido literal. Ela quer aquela sensação de encontrar alguém que faça todo o caos ao redor desaparecer por alguns minutos. E Owen surge justamente como uma possibilidade que ela não estava esperando.

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O filme trabalha esse conflito através de um imediatismo frenético. Tudo acontece rápido. As pessoas correm contra o tempo, os encontros acontecem, os desencontros surgem, os personagens precisam tomar decisões antes que o tempo acabe. Mas o romance central funciona justamente quando consegue desacelerar. Existe uma diferença muito interessante entre o mundo ao redor de Allie e Owen e os momentos em que os dois estão juntos. Enquanto Nova Iorque parece estar em contagem regressiva, os dois começam lentamente a perceber que talvez não tenham tanta pressa assim. É uma comédia romântica que, no fundo, não possui vergonha de ser uma comédia romântica. O final é clichê, previsível e completamente dentro daquilo que o gênero costuma entregar. Mas, sinceramente, funciona. Depois de passar o filme inteiro discutindo a busca imediata por prazer, talvez fosse justamente necessário terminar com algo tradicional, quase açucarado. O clichê passa a fazer parte da própria proposta. Em uma história sobre pessoas tentando encontrar alguma coisa verdadeira em meio a uma noite construída para relações instantâneas, terminar com um romance assumidamente fofo parece menos uma falta de criatividade e mais uma escolha consciente.

Créditos: Universal Pictures Brasil/Olive Bridge Entertainment

O longa acaba sendo um “absurdo sincero”. Por trás da cidade transformada em um caos sexual, das situações exageradas e da corrida contra o relógio, existe uma história bastante simples sobre duas pessoas tentando descobrir o que realmente querem. O filme não pretende reinventar a comédia romântica, mas entende que ainda existe espaço para contar uma história tradicional de maneira divertida. 

Em um gênero que tantas vezes parece ter vergonha de suas próprias fórmulas, ‘Só Por Uma Noite’ abraça o romance farofa, coloca uma cidade inteira em estado de apocalipse e, no meio disso tudo, encontra uma história surpreendentemente fofa sobre conexão.

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Rui Filho
Rui Filhohttp://estacaonerd.com
Recifense, cinéfilo e estudante de Cinema desde 2020, graduando em Publicidade e Propaganda. Apaixonado por arte, amante dos esportes, curioso sobre tudo e sempre em busca de algo novo para assistir.
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