É preciso ter uma confiança extraordinária na própria capacidade de convencer os outros para permitir que uma equipe de documentaristas passe mais de um mês dentro da sua casa depois de você ter sido condenada por fraude. Mais extraordinário ainda é escolher Nathan Fielder, um homem que construiu praticamente toda a carreira colocando pessoas em situações constrangedoras e fazendo perguntas que ninguém socialmente ajustado teria coragem de formular. Elizabeth Holmes, aparentemente, não viu problema algum nisso. Talvez acreditasse que conseguiria convencê-lo de sua inocência. Talvez soubesse exatamente com quem estava lidando. Ou talvez eu já esteja atribuindo intenções a uma mulher que nunca conheci, o que, considerando o filme que estamos prestes a discutir, parece um começo bastante apropriado.
Dirigido por Fielder e Lance Oppenheim, Tudo Pode Ser Visto acompanha os últimos dias de liberdade da fundadora da Theranos antes de iniciar sua pena de 11 anos de prisão. Para quem não acompanhou o escândalo, Holmes prometeu revolucionar a medicina com uma tecnologia capaz de realizar diversos exames utilizando apenas algumas gotas de sangue. O detalhe inconveniente é que a tecnologia não funcionava como anunciado, embora isso não tenha impedido investidores de despejarem milhões de dólares na empresa. Condenada por fraude, ela agora deseja apresentar sua versão dos acontecimentos. E, para isso, convida câmeras para dentro de casa, onde vive com o companheiro Billy Evans e os dois filhos. Não parece a decisão mais prudente para alguém nessa situação, mas Holmes já demonstrou possuir uma relação bastante particular com a prudência.

A princípio, tudo indica que estamos diante de mais um documentário sobre a ascensão e queda de uma personalidade controversa. Fielder, porém, não parece particularmente interessado em reconstruir uma história já contada em reportagens, livros e até numa minissérie estrelada por Amanda Seyfried. Ele quer compreender como alguém consegue sustentar uma versão da realidade mesmo diante de evidências que a contradizem. Holmes insiste que nunca mentiu, enquanto Fielder responde com a serenidade desconcertante de quem está genuinamente tentando descobrir se os dois habitam o mesmo planeta. É engraçado, até lembrarmos que estamos falando de uma fraude real. Depois fica desconfortável. E então volta a ser engraçado, o que provavelmente diz alguma coisa sobre nós.
Passei boa parte do filme tentando descobrir se Elizabeth Holmes estava manipulando Nathan Fielder. Depois, comecei a considerar a possibilidade de que Fielder estivesse manipulando Holmes. Em determinado momento, percebi que talvez os dois estivessem manipulando a mim, o que achei um pouco injusto, considerando que havia ido ao Cinema São Luiz para assistir a um documentário, não para participar de um experimento psicológico de quase três horas. O problema é que, quando finalmente parecia ter entendido quem estava conduzindo a situação, alguma nova informação surgia para colocar minhas conclusões em dúvida. E não descarto que essa sensação tenha sido cuidadosamente planejada. Aliás, tratando-se de Nathan Fielder, seria estranho se não tivesse sido.
A genialidade do documentário está justamente nessa relação entre quem filma e quem deseja ser filmado. Holmes parece acreditar que a proximidade das câmeras finalmente permitirá que o público compreenda sua inocência. Fielder, por outro lado, sabe que oferecer acesso irrestrito não significa necessariamente oferecer a verdade. Mas será que ele próprio está interessado apenas em descobri-la? Oppenheim transforma essa disputa numa experiência visual inquietante, aproximando a câmera de rostos, olhares e silêncios até que uma conversa aparentemente banal adquira a tensão de um interrogatório. Billy Evans, com sua necessidade quase comovente de controlar a situação, frequentemente consegue tornar tudo ainda mais desconfortável. Há momentos em que sua presença parece destinada a resolver um problema e termina criando outros três.
Quem conhece Nathan for You ou O Ensaio sabe que Fielder possui uma habilidade particular para construir situações nas quais as pessoas revelam aspectos de si mesmas justamente quando tentam controlar a maneira como serão percebidas. Seu humor depende dessa distância entre intenção e resultado, entre aquilo que alguém acredita estar comunicando e o que efetivamente chega ao público. Em Tudo Pode Ser Visto, porém, essa dinâmica encontra uma complicação adicional: Elizabeth Holmes também construiu sua trajetória em torno da capacidade de produzir uma narrativa convincente. Temos, portanto, duas pessoas particularmente familiarizadas com os mecanismos da persuasão, cada uma tentando compreender o que a outra pretende. Ou pelo menos é isso que o filme nos permite acreditar.

Mas o que realmente torna Tudo Pode Ser Visto extraordinário é sua capacidade de questionar a própria linguagem documental. Afinal, até que ponto uma pessoa continua sendo ela mesma quando sabe que está sendo observada? Uma emoção deixa de ser verdadeira porque alguém decidiu registrá-la? E por que aceitamos tão facilmente determinadas imagens como provas, quando sabemos que existe alguém escolhendo o que mostrar? Fielder e Oppenheim não fingem possuir uma objetividade impossível. Pelo contrário, colocam suas próprias decisões, contradições e interferências sob investigação. A narrativa muda de direção de maneiras tão inesperadas que explicar determinados acontecimentos seria privar o espectador de uma das experiências mais deliciosamente desconcertantes que o cinema pode oferecer. Além disso, eu correria o risco de parecer muito segura de uma interpretação que provavelmente precisaria revisar cinco minutos depois.
São quase três horas de duração, algo que normalmente me faria reconsiderar minhas escolhas de vida antes mesmo dos créditos iniciais. Aqui, porém, cada nova camada altera nossa percepção sobre aquilo que acabamos de assistir. O humor constrangedor de Fielder encontra na realidade um terreno fértil, enquanto a montagem transforma situações domésticas em um jogo permanente de manipulação, representação e desconfiança. E existe algo particularmente perverso na maneira como o filme nos faz procurar sinais de mentira em cada gesto. Um silêncio prolongado parece suspeito. Uma resposta rápida demais também. Se alguém olha diretamente para a câmera, desconfio. Se evita olhar, desconfio ainda mais. Em algum momento, percebi que estava aplicando critérios que tornariam praticamente impossível qualquer pessoa parecer inocente. O que talvez diga tanto sobre minha posição como espectadora quanto sobre os personagens diante de mim.
No fim, Tudo Pode Ser Visto não pretende absolver Elizabeth Holmes, tampouco oferecer uma explicação definitiva para seu comportamento. Sua ambição é mais interessante: investigar como construímos narrativas para convencer os outros e, talvez, a nós mesmos. É um documentário sobre fraude que entende perfeitamente que uma câmera também pode ser utilizada para fabricar versões da realidade. Saí do cinema convencida de que havia compreendido o que Fielder e Oppenheim estavam tentando fazer. Essa certeza durou aproximadamente até começar a conversar sobre o filme com meus amigos. Desde então, venho reconsiderando algumas coisas, inclusive a possibilidade de que minha interpretação seja apenas mais uma narrativa cuidadosamente organizada para parecer convincente. Se essa era a intenção dos diretores, funcionou. Se não era, talvez eu tenha acabado de fazer parte do trabalho por eles.
Filme assistido em 31 de outubro de 2026, durante a 17ª edição da Janela Internacional de Cinema do Recife, no Cinema São Luiz. Tudo Pode Ser Visto (You Can See Everything), dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, tem estreia prevista nos cinemas brasileiros para 26 de novembro de 2026.


