seg, 15 junho 2026

Backrooms: Um Não-Lugar | O que torna o filme tão assustador?

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Existe um tipo de medo que não vem de monstros. Não tem sangue, não tem jumpscare, não tem ameaça visível. É um medo mais antigo, mais fundo, que nasce do silêncio de um corredor vazio, do zumbido constante de uma lâmpada de escritório, de um papel de parede que você sente que já viu em algum lugar, mas não consegue lembrar onde. É o horror liminar: e ele está no centro de Backrooms: Um Não-Lugar, o longa de estreia do diretor Kane Parsons da A24 que chega aos cinemas nesta quinta, 28 de maio, com distribuição da Imagem Filmes.

Afinal, o que é horror liminar?

O termo vem da palavra “liminar”, que designa o ponto de transição entre dois estados. Espaços liminares são, por definição, lugares de passagem: corredores de shopping abandonados, lobbies de hotéis fora de hora, estacionamentos cobertos e silenciosos. Ambientes criados pelo homem, esvaziados de sua função original e, portanto, de sentido. Ao perderem o propósito, esses espaços passam a provocar uma sensação visceral de que algo ali está errado, sem que seja possível apontar exatamente o quê.

A força particular desse subgênero é que ele não assusta por revelar algo desconhecido, mas por distorcer o familiar. Em entrevista ao Los Angeles Times, Parsons descreveu o apelo desses espaços como “um presente que arma armadilhas com o passado, usando a nostalgia como isca”. Não é à toa que o fenômeno ressoa com tanta força em sua geração: as fotos digitais da infância, granuladas e mal iluminadas, têm exatamente a mesma textura das imagens que deram origem aos Backrooms. Esses ambientes acionam memórias afetivas que não pertencem a nenhum lugar específico, uma nostalgia sem endereço, um reconhecimento sem origem. O cérebro tenta construir sentido a partir de um espaço que recusa sentido, e essa tensão produz angústia.

A visão de Kane Parsons

Mas Parsons enxerga nesse medo algo além da experiência individual. Na mesma conversa com o LA Times, ele conectou o horror liminar a uma ansiedade coletiva mais ampla: “O mundo vai ficando cada vez menor. Você passa mais e mais tempo em menos lugares, lugares mais interiores. Isso produziu um mundo onde muitas pessoas estão expressando uma ansiedade de sentir que lhes falta um propósito, uma sensação de conexão com os vizinhos e com a natureza.” Os espaços liminares, nessa leitura, não são apenas cenários perturbadores: são o reflexo físico de um isolamento que já se instalou muito antes de qualquer portal aparecer no porão de uma loja de móveis.

É exatamente nesse território que Backrooms: Um Não-Lugar acontece. No filme, Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor de móveis em crise silenciosa, descobre esse portal e é arrastado para um labirinto de ambientes de escritório que não deveriam existir. Sua terapeuta, a Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), vai atrás dele carregando traumas próprios, e os dois acabam confrontando, nas Backrooms, o isolamento que já os consumia do lado de fora.

Para o diretor, o horror liminar também é um sintoma de algo maior, cultural e coletivo. “Backrooms é por excelência aquilo que aproveitaria da nossa curiosidade e do nosso desejo de saber mais, de juntar significado a partir do que parece ser ruído aleatório”, afirma. “É sobre cair na toca do coelho e chegar a um lugar onde você percebe que existe uma crise que está afetando muito mais gente do que apenas o Clark. Está em todo lugar.” Com Backrooms: Um Não-Lugar, Parsons transforma esse pavor difuso em cinema, carregando para a tela grande um medo que já mora em nós bem antes de qualquer filme.

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Hiccaro Rodrigues
Hiccaro Rodrigueshttps://estacaonerd.com
Eu ia falar um monte de coisa aqui sobre mim, mas melhor não pois eu gosto de mistérios. Contato: [email protected]