Doutor Monstro foi o longa de abertura do CINE-PE, evento de cinema que ocorre no Recife, durante a primeira semana do mês de junho. Estrelado por Taís Araújo, Marat Descartes e Guilherme Weber, o filme, baseado em um caso real, segue o tortuoso julgamento do Doutor Farah, responsável por matar e esquartejar uma ex-paciente, com quem alegava ter tido um relacionamento amoroso.
A dramatização dos eventos envolvendo um dos mais brutais feminicídios da história nacional exigia uma sensibilidade que não existe na obra. Ao tentar abordar um tema tão espinhoso, acaba reforçando – ainda que involuntariamente – estereótipos de gênero, através da forma como escolhe retratar personagens e reconstruir fatos. A começar pela representação da vítima, sem qualquer indício de nuance, fazendo com que ela pareça uma caricatura de si mesmo. Enquanto seu assassino é mostrado como um ser complexo, cheio de nuances.
É engraçado pois o filme abre justamente com uma cena que ressalta sua natureza grotesca, pintando-o como o monstro do título, porém conforme a narrativa avança para o tribunal, ele se torna cada vez mais humano. Ainda que o filme deixe claro seu posicionamento quanto a culpa daquele homem e a necessidade de puni-lo, não consegue escapar de seu fascínio por ele, colocando-o ao centro da narrativa, enquanto trata sua vítima como uma personalidade unidimensional. Ressalta-se que o problema não é contar o crime pela perspectiva do predador, é a forma como faz isso, pintando-o como a única figura multifacetária da narrativa.

Como o algoz é esse ser cheio de camadas, ao contrário dos demais personagens, coube ao advogado responsável por sua defesa o papel de vilão da trama. Ele beira o cartunesco proferindo frases de efeito como “a verdade não importa” ou “você prende, eu solto!”, além de constantemente fazer pouco caso do crime, tentando suavizar sua gravidade ao afirmar que as circunstâncias da morte não faziam diferença alguma. É como se o filme acreditasse que um sistema de justiça garantista, onde acusados podem ter a chance de se defenderem, é o verdadeiro culpado por trás do crime. O advogado – e por tabela o STF – é mais vilanizado do que o próprio monstro!
As próprias cenas que reconstroem os momentos de violência contra a mulher são estilizadas sem o bom senso esperado para lidar com uma vítima da vida real, não há respeito pela memória de alguém que existiu de verdade. Além de gráficas e fetichistas – com direito a sangue escorrendo até suas partes íntimas – essas passagens são filmadas como se pertencem em um slasher ou um gialli, onde a espetacularização da morte é bem-vinda – afinal tratam-se de personagens fictícios.
Em suma, apesar das claras boas intenções, faltou tato para lidar com um material tão delicado. Sob um manto pseudo-progressista, o filme reforça estereótipos nocivos, ao tentar evitá-los, tanto textual, quanto imageticamente.


