Feito na América (American Made), que estreia no Brasil hoje, mistura ficção e realidade. É baseado na história de Adler Berriman “Barry” Seal – interpretado por Tom Cruise (Missão Impossível e A Múmia)–, piloto de aeronaves e negociante, que realmente trabalhou para a CIA e virou um traficante de drogas e armas, aliado ao Cartel de Medellín – sim, ligado a Pablo Escobar! – nas décadas de 1970 e 1980.

O roteirista Garry Spinelli (O Esconderijo), o diretor Doug Liman (No Limite do Amanhã e A Identidade Bourne) e o montador Saar Klein (Veia de Lutador e Identidade Bourne) brincam com a narrativa, com jogos de câmera e uso de animações – bem didáticas! – para contar sua história. Utilizam o currículo de trabalho de Barry como norteador, inserem imagens produzidas pela TV na época e uma gravação feita por Cruise na pele de Seal, contando todo o esquema do tráfico, que serviria como “prova” caso lhe acontecesse algo. Narrativamente o filme se assemelha a Narcos – produção da Netflix que conta a história de Pablo Escobar e do Cartel de Medellín –, porém se supera na ação – muitas vezes exagerada –, com Cruise – como sempre – participando das cenas de ação e pilotando aviões.

O filme retrata ainda a relação de Seal com família, as discussões com a esposa Lucy – interpretada por Sarah Wright (A Minha Casa Caiu e Finalmente 18!) – sobre a presença do marido em casa e a viabilidade financeira de seu novo “negócio”, levando-a posteriormente ao entendimento do trabalho e aceitação do mesmo, já que todos começaram a ser bem recompensados.

A visão de Seal é de um cidadão norte-americano – por isso o título – que viabilizou o sucesso da lucrativa rede de tráfico de drogas que escoava cocaína da Colômbia, Peru, Bolívia e Honduras para os Estados Unidos, Europa, Canadá, México, Porto Rico e República Dominicana.

Personagens como Monty Schafer, vivido por Domhnall Gleeson (Brooklin e Ex_Machina), poderiam ter uma presença mais marcante, visto que o mesmo é um agente da CIA que recruta Barry para fazer missões aéreas sigilosas de reconhecimento de territórios da América do Sul e entregar a documentação para o governo estadunidense, na tentativa de sufocar qualquer possibilidade de ascensão de regimes socialistas e comunistas em seu “quintal”. Mesmo sendo estrategista da operação – que, graças a Seal, não saiu como planejada –, a atuação de Gleeson é fraca, talvez devido à quantidade de personagens e o tempo de filme.

Na direção de fotografia, cabe chamar a atenção para o trabalho do fotógrafo e cineasta uruguaio erradicado no Brasil, Cesar Charlone, conhecido por Ensaio sobre a Cegueira e O Banheiro do Papa, que é eficaz em ambientar o espectador no contexto do filme.

O filme ajuda a compreender como se davam as relações políticas entre EUA e outros países, ainda que essas sejam tratadas de forma muitas vezes jocosa. Por esse motivo, é recomendável para uma “sessão pipoca”, como entretenimento, mas também para uma leitura histórica da obra – de como o EUA retrata um período de sua história nos dias atuais. Seja qual for sua intenção, é uma boa pedida para diversão e reflexão.

Para quem é apaixonado por História & Arquivos como eu e quer estudar um pouco sobre outro olhar dessa narrativa, é possível acessar a documentação do DEA – Drug Enforcement Administration – (https://archive.org/details/BarrySealDEAFile) e do FBI – Federal Bureau of Investigation – (https://archive.org/details/BarrySeal), ambos dos Estados Unidos, sobre o verdadeiro Barry Seal.