
As 24 horas de Le Mans – famosa é mais antiga corrida de resistência automobilística – são o foco do primeiro filme brasileiro dirigido para IMAX, ou ao menos deveriam ser. Na prática, pouco vemos da corrida propriamente dita, as cenas nas pistas mostram closes breves em alguns carros, cortes de algumas batidas e de uma ou duas ultrapassagens. A exceção fica por conta de uma cena noturna belíssima, na qual conseguimos ver boa parte do circuito iluminado pelas luzes da cidade. Quando a chuva começa há um plano bonito da neblina vermelha que se forma durante a escuridão da noite.
Porém, a ação do esporte não é mostrada nas pistas, senão por meio flashes apressados de momentos chaves do circuito. É preciso reconhecer as limitações de recurso do projeto, gravado com uma equipe de filmagem composta apenas por 8 pessoas. Todavia, existem formas e formas de contornar escassez orçamentária, e os diretores escolhem a pior: expositividade! São monólogos intermináveis do piloto reclamando sobre momentos da pista que nunca são mostrados por inteiro, letreiros que comunicam a mudança de posição dos carros, sem que vejamos as ultrapassagens acontecendo e voice over dos narradores para explicar os principais acontecimentos da corrida.

Um momento dramático envolvendo o pára-brisa quebrado do carro acaba sendo também mal aproveitado, por conta de uma decisão criativa de mostrar apenas os vidros embaçados sem alternar com tomadas externas. O recurso de nos colocar às cegas junto com o piloto até poderia ter funcionado se os diretores soubessem aproveitá-lo, porém não conseguem sequer usar a falta de visibilidade para gerar ansiedade, assim, acabam por transformar um momento suspostamente tenso em uma passagem tediosa.
E se pouco é aproveitado das corridas, fora das pistas o filme fica surpreendentemente ainda mais fraco. As reflexões do personagem principal carecem de qualquer profundidade ou substância, sendo, além de desinteressante, bastante cafonas. Frases no melhor estilo coach são proferidas o tempo todo, a exemplo de “a corrida só termina depois da bandeirada”, “a diferença entre eu e você é que eu não desisto nunca”, dentre outras verborragias constrangedoras. A escolha de utilizar o próprio piloto para viver essa versão de si mesmo em tela, ao invés de escalar um ator profissional deixa o texto já truncado ainda menos fluido, dificultando a conexão com o personagem que o filme busca estabelecer.
O longa até começa bastante promissor prometendo barulhos de carros e cenas emocionantes de corrida, mas da fotografia pouco se aproveita já que tudo é mostrado muito brevemente e o som dos motores acaba sendo ofuscado pela trilha sonora, que além de cafona, é alta demais quando comparada com os barulhos da corrida. E por falar em cafonisse, a última passagem antes dos créditos só pode ser definida como vergonhosa.


