ter, 22 setembro 2026

Crítica | A Ilha Esquecida

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Na inocência da infância, uma amizade improvável surge entre duas garotas com personalidades radicalmente opostas, Jo não tem papas na língua e age impulsivamente, movida por suas emoções, ela constantemente se deixa levar pela vida, com uma fé inabalável de que tudo terminará bem, Raissa, por outro lado, planeja cuidadosamente os próximos passos de seu futuro, traçando metas e objetivos, conforme se espera da melhor aluna da turma. De certa maneira, ambas crescem sendo guiadas pelos ideais das figuras femininas pelas quais foram criadas, porém, enquanto a vó de Jo é um espirito livre e sonhador, a mãe de Raissa é obsessiva controladora, beirando a frieza emocional.

Já no final da adolescência essas diferenças começam a leva-las para caminhos distintos, então no ápice de uma briga que ameaça romper o vínculo entre as duas, elas encontram uma ilha encantada com a qual fantasiavam desde crianças. No entanto, após passarem uma noite no local, suas memórias são apagadas e elas precisam tentar recuperar as lembranças para poderem retornar, o que só será possível se trabalharem em equipe e superarem suas adversidades.

A premissa é basilar, mas a dupla de diretores extrai o melhor dela: a começar pelas cativantes protagonistas, que a despeito dos traços definidores, não se tornam estereótipos, nem se resumem ao conceito esboçado de uma personalidade unidimensional; os demais personagens que compõem o grupo também não ficam devendo nada, funcionam como alivio cômico ocasional e sustentam bem suas aparições – com destaque para o sereio drag com mamilos de estrela do mar; a ilha em si é um universo fascinante, cheio de comunidades com características particulares, cada uma tão encantadora que renderia um longa próprio. Ao mesmo tempo, todos esses detalhes são bem explorados e deixam um gostinho de quero mais.

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O diretor passeia com a câmera por meio de travelings que percorrem cada canto daquelas paisagens mágicas, sem vergonha de abraçar a fantasia e o ridículo de um filme infantil, sem que isso implique em infantilizar a experiência. A ideia é cativar o público mais jovem pela magia visual construída e exposta em tela, com uma história singela, sem nunca ser tola.

A memória assume um peso essencial dentro da narrativa, sendo visualmente representada pelas tão populares pulseiras da amizade, cada berloque simbolizando uma fase da vida – uma saída inteligente encontrada pelos realizadores para mostrar a evolução da amizade, com bastante criatividade. Para superarem as adversidades da ilha, precisarão se lembrar de toda sua trajetória em conjunto, não só da noite esquecida, recapitulando momentos chaves da relação entre as duas, o que as leva a perceber o quanto o peso do amor de uma pela outra é infinitamente superior ao peso das desavenças.

Uma bonita cena próxima ao final sintetiza o melhor da obra ao mostrar as recordações sendo passadas como se fossem um filme dentro da mente das garotas, imagens gravadas no cérebro, tal qual os registros de uma câmera polaroid, se tornam simultaneamente a mais poderosa arma e a mais valiosa joia.    

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
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