Crítica | A Mão de Deus

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A Itália é indiscutivelmente um berço de grandes pensadores. Veja bem: a expressão não está ligada apenas a mentes filosóficas como as do teólogo São Tomás de Aquino, afinal, saem do país bem sucedidos criadores de um tudo – e o cinema está neste time. Por meio dele, aliás, o território italiano caiu nas graças de uma população que o via através do olhar de Vittorio de Sica, Michelangelo Antonioni, Federico Fellini, e companhia. E é em Nápoles, cidade popularizada também pela nativa Sophia Loren e o estadunidense Começou em Nápoles (1960), que A Mão de Deus (2021), de Paolo Sorrentino, acontece. Após agregar para si o status de ganhador do Oscar (feito ocorrido em 2013 por A Grande Beleza), Sorrentino mantém os pés em suas raízes e destila, com humildade, sua gratidão pela terra que o fez ser quem é. 

Enquanto Diego Maradona se transformava em ídolo para os aficionados em futebol, a Nápoles de 1980 fervilhava. Fabietto (Filippo Scotti) é fruto de um núcleo familiar que respira o esporte, e, quando o craque argentino surge no local para sua apresentação em um dos times mais conhecidos da Itália, o próprio Nápoles, a família do menino enlouquece. Entretanto, ao instaurar-se um caos oriundo de uma tragédia que afeta diretamente Fabietto, o rumo de sua vida se modifica. Logo, o personagem é coagido por seus próprios pensamentos a encontrar um significado para suas ações, desejos e motivações, visto a inexpressividade dos mesmos. Dentro deste vácuo, até a idolatria por Maradona é questionada.

Netflix/Divulgação

À primeira vista, A Mão de Deus parece uma ininterrupta contemplação. Remetendo a filmes que declaram o amor por suas paisagens, como Godard, Brigitte Bardot e a parceria de ambos em O Desprezo (1963), o longa-metragem não se amedronta diante de um espaço que poderia roubar a beleza de qualquer outro foco. Para isso, a aproximação e o afastamento da lente da câmera, de cima para baixo ou de um lado para o outro, sem necessariamente mexer-lá, e a nitidez quase gráfica da imagem, torna cada detalhe uma peça de arte a ser estudada. O pintor Edward Hopper, com seu manuseio da forte luz do sol em contraste com ambientes fechados, poderia tomar posse de uma artimanha que eleva o trabalho de Sorrentino a uma categorização próxima a um poema lírico discursado em nuances de cores, mares, casas e cenografias que unem a pintura ao cinematógrafo. Cuidadosas, as locações escolhidas conectam objetos, vestimentas e contextos, seja em uma antiga moradia, em que a madeira escura, envernizada e polida exalta o desconforto e o brilho das velas, ou em uma cozinha que predomina um laranja notado nas paredes e nas frutas de mesma cor. Em todos os momentos, a fotografia e a direção de arte abrangem uma sensibilidade à base da fascinação.

 Aliando-se ao mérito de uma estética primorosa, está a história de Fabietto. Embora leve um certo tempo para que a audiência descubra do que de fato se trata a obra, a construção do dia a dia do jovem é enfático no objetivo de fazer íntimo não só o personagem, mas também seus parentes. Interpretados como uma família sem maiores problemas de convivência – por mais que julgamentos para com os outros sejam de praxe -, os destaques ficam por conta das personalidades que cada um liberta somente em seu círculo mais reservado. Apesar dos pareceres individuais que dedicam a cada familiar, juntos tais integrantes são capazes de transparecer uma espécie de sentido verdadeiramente pessoal, dado a afinidade e a capacidade de divertimento dos mesmos. A dedicação de uma parte do filme para a identificação do público acerca do seio familiar do protagonista é um modo de tornar possível a empatia com o que vem a seguir.

Netflix/Divulgação

Ainda que concisa, a trama de Fabietto não atinge um clímax impactante; ao invés disso, seu enredo é edificado nos acontecimentos que o curso natural da existência impõe. A maior mudança, exposta no segundo ato, basta para que o personagem aflore e, deveras, viva. Em sua trajetória, apoiando ou não as decisões do jovem, estão os participantes mais oportunos do longa-metragem: Patrizia (Luisa Ranieri), a tia que estimula os delírios juvenis provenientes dos hormônios da adolescência (exibição igualmente do imperativo do que é ser homem ou não); o pai de Fabietto, Saverio (Toni Servillo), proprietário de um ser irônico e detentor da paixão por Maradona passado para o filho; e por aí vai. Desenvolvidos a ponto de serem significativos, estes e os demais personagens auxiliam a dar voz ao percurso de juventude de Fabietto, incluindo as ocorrências que mexem com as crenças, a insegurança, a indecisão e a impulsividade de ser jovem.  

 Abordados com sabedoria, os tópicos de A Mão de Deus possuem mais um cunho subjetivo do que expositivo. Na realidade, a condução de Sorrentino abrange sua licença poética para discursar sobre sua quase autobiografia e sua total consciência de que Nápoles é o gancho perfeito para a demonstração do boom de emoções que é a juventude. A versatilidade dos cenários sincronizam com a predileção do artista por um tom mais calmo, porém que exterioriza-se por meio dos olhos. Visivelmente fanático pelo charme da cidade, o filme prioriza seus majestosos horizontes ao mesmo tempo que uma inconstância interna de Fabietto está efetuando-se, concedendo a tal fato, uma suavidade inesperada e uma força tão imprevista quanto. Com Maradona sendo um ponto central de união entre a família do menino, é universal a anexação com a obra, cujo lida com uma figura que é parte da cultura. Porém, Sorrentino, ainda que o trate como um ser mitológico, não faz distinção de quem o “segue”; o que serve para os familiares do jovem.

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Se assemelhando imageticamente com Me Chame Pelo Seu Nome (2017), outro filme de descendência italiana, mas não condizente com ele, A Mão de Deus é um deleite para os que esperam de uma obra cinematográfica a beleza onírica que este pode trazer. A narrativa sem um pico e a estagnação, em um determinado ponto, de variantes na história, não é capaz de enublar o que Fabietto e os integrantes – muito eficientes – do filme carregam para que Paolo Sorrentino dê a maestria que sua habilidade permite em relação a fazer cinema. Dessa maneira, até a metalinguagem que dirige-se diretamente aos cinéfilos constituem um longa-metragem que referencia outros, mas não os copia de modo descarado. O símbolo de Maradona já o faz ser diferenciado, tal qual o jogador. Assim, caso você não goste nem saiba jogar futebol, fique tranquilo: A Mão de Deus serve apenas como apreciação de uma boa arte.

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Revisão Crítica

NOTA
Laisa Limahttp://estacaonerd.com
Uma mistura fictícia de Grace Kelly, Catherine Deneuve e Brigitte Bardot versão subúrbio carioca do século 21.

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