seg, 15 junho 2026

Crítica | A Mensageira

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Um senhor se aproxima carregando consigo uma pequena tartaruga. As janelas de uma van se abrem e uma garota surge em cena para se comunicar com esse animal centenário. Iván Fund inicia A Mensageira sumarizando, com habilidade, o que encontraremos nos próximos 90 minutos. O filme acompanha, pelo interior da Argentina, uma garota chamada Anika acompanhada de dois tutores. Eles atravessam diversos locais, em um típico road movie, atendendo a chamados de pessoas que querem entender por que seus animais estão doentes ou, se já mortos, o que estão sentindo.

Ou seja, em termos gerais, é um filme que caminha entre duas vertentes: o naturalismo, em uma visão das paisagens e das relações estabelecidas; e a fantasia, através das conversas entre Anika e os animais — ainda que nós, espectadores, não tenhamos acesso a essas trocas. Embora ambas as abordagens não se anulem, é inevitável levantarmos algumas questões em torno delas. E essas perguntas surgem justamente a partir dessa “não anulação”. O longa-metragem parece estimar muito a abordagem de uma inocência que é valorizada a partir da protagonista, mas também dessa mesma característica conquistada aos poucos pelos adultos que a cercam.

Os planos focados neles, em seus momentos de silêncio e em suas tentativas de mostrar seus sentimentos para a garota, enriquecem essa característica; ao mesmo tempo, existe uma distância que soa estranha a essa conexão. Explico: dentro dessa vertente naturalista, existe um componente quase documental na forma com a qual o cineasta filma esses personagens, como se, ao mesmo tempo que tenta gerar uma imagem afetiva, também agisse como uma “mosca na parede”. E isso não acontece num sentido de emancipação espectatorial; pelo contrário, existe uma noção cinematográfica que fica evidente nesse posicionamento.

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Fund, habilidoso na construção de imagens paisagísticas, tanto naturais quanto humanas, cobre seu filme com o preto e branco. E isso nos leva de volta a esse distanciamento: o filme incorre no desejo pelo autoral que fica evidente ao não abraçar de vez o lado mais afetivo e fantasioso da sua narrativa. Não digo que ele deveria trazer animais falantes ou semelhantes, mas abraçar a mística e o mistério dessa garota que entende sobre a vida através da experiência da quase morte ou da morte.

Estamos diante de um filme que combina tanto o modo dos filmes de estrada quanto dos chamados coming of age, desse desabrochar que se dá pelo contato com o outro. Então, nessa fundação narrativa e imagética, o filme soa muito mais ambicioso nos termos descritivos do que, de fato, na sua execução. A estrutura do projeto não está nessa combinação de características cinematográficas, mas na ideia de uma imagem tão polida que se torna pouco sentimental, quase fria.

E, nisso, o longa-metragem cambaleia na ideia de um cinema poético, pois o é em ideia e pouco em substância — ainda que haja momentos de contemplação que condensam os bons momentos do mundo das ideias. Também é pouco eficaz na fantasia, optando pela saída mais fácil não por desejar deixar que o público tome suas decisões quanto às habilidades da menina, mas por desejar ser mais cerebral do que, de fato, sentimental. E, principalmente, é inábil na própria noção de um cinema que podemos chamar de “não fale, mostre”, pois suas afetações formais são tão distantes que o trajeto desses personagens não empolga, criando um filme tão sinuoso quanto as estradas argentinas.

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Se, por um lado, há triunfos pontuais, muito por causa de seus atores, a linguagem deixa a desejar quando algumas decisões formais deixam de ser consequência de sua narração e se tornam apenas uma abordagem estilística, como se esta última fosse a escolha incipiente para caber na primeira. E, por isso, A Mensageira é mais uma produção que sofre na batalha entre afetividade e pretensões, com esta segunda saindo como vencedora quase sempre.

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