qui, 16 julho 2026

Crítica | A Odisseia

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Christopher Nolan dispensa apresentações. Seus filmes acumulam 18 Oscars, incluindo duas estatuetas pessoais conquistadas por ‘Oppenheimer’ (2023), nas categorias de Melhor Direção e Melhor Filme, como produtor. Uma geração inteira passou a acompanhar seu trabalho a partir da trilogia Batman: O Cavaleiro das Trevas (2005-2012), enquanto obras como ‘O Grande Truque’ (2006), ‘A Origem’ (2010) e ‘Interestelar’ (2014) consolidaram sua reputação por unir rigor técnico a narrativas marcantes. Adaptando um dos livros mais influentes da história da literatura, A Odisseia, de Homero, Nolan retorna às telas após o enorme sucesso de Oppenheimer, filme que lhe rendeu seu primeiro Oscar como diretor.

Odisseu (interpretado por Matt Damon) sai de Ítaca para enfrentar Troia. 10 anos depois, Penélope (interpretada pela Anne Hathaway) ainda aguarda o retorno do marido, enquanto Telêmaco (interpretado por Tom Holland) vai atrás de informações sobre o paradeiro do seu pai, que, ainda vivo, sonha em retornar para casa.

Todos nós estamos cansados de saber sobre a paixão de Nolan pelo excesso, pelo rigor técnico, pelas soluções mais absurdas para fazer tomadas e cenas, desde construir cenários complexos até, literalmente, explodir aviões. Amando ou odiando, especialmente entre cinéfilos, o cinema de Christopher Nolan – após a trilogia ‘Batman: O Cavaleiro das Trevas’ (2005-2012) e de sucessos como ‘A Origem’ (2010) e ‘O Grande Truque’ (2006) – é baseado em estruturas megalomaníacas cheias de culpa por dentro. Cito especialmente três, que acredito serem os melhores que Nolan trabalha essas questões: ‘A Origem’ (2009), ‘Oppenheimer’ (2023) e ‘Batman: O Cavaleiro dos Trevas’ (2008). São protagonistas com passados que os assombram, que os fazem repensar suas ações e, em outros momentos, os fazem agir por elas, por suas emoções incontroláveis. Porém, essas emoções são guiadas na obra pela estética, por esse gigantismo exagerado, seja os sonhos e as missões complexas de Cobb em ‘A Origem’ para ver seu passado com sua esposa, seja as imagens e alucinações sobre as vítimas de Hiroshima e Nagasaki de Oppenheimer ou os obstáculos que Odisseu passa para voltar pra casa. É uma complexidade emocional em busca de uma autorrevelação que se expande para texto e imagem, que literalmente se expande por toda a tela IMAX, a qual Nolan faz questão de gravar seus filmes.

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Créditos: Universal Pictures Brasil

Ainda vejo um rima muito interessante desse filme com ‘Oppenheimer’, ao tratar sobre um homem afetado pela guerra, por mortes, por monumentos caídos, amaldiçoados por cenas que seus próprios olhos testemunharam. Se em ‘Oppenheimer’ isso era marcado pelos enquadramentos e por atuações mais fortes, em ‘A Odisseia’, esse trauma se passa pelas situações e metáforas das criaturas, do filho de Poseidon, da ira de Zeus, da dor de Atena. A decupagem escolhe por uma abordagem interesse nesse sentido, já que grande parte do filme é focado em Odisseu e no que ele passou após derrubar Troia, deixando em segundo plano o drama de Telêmaco e Penélope, pois parte da premissa dos fantasmas de Odisseu, de seus amores, de seus pensamentos. Assim como, em cena, acompanhamos seus diálogos com os mortes ou com Atena e vemos suas ações em campo de batalha e em sua aventura para retornar para casa, em tela nós acompanhamos o sofrimento deixado para trás, em Ítaca, com Penélope sofrendo pela saudade do marido e Telêmaco sofrendo para tentar achar uma resposta sobre o seu pai. É uma odisseia pela mente de Odisseu, passeando por todos os seus sentimentos. Assim como ele descreve os cantos das Sereias, o que vemos em tela são “todos os desejos e todos os medos de um homem”. Dentro dessa lógica, as atuações seguem uma lógica de contemplação, de dor, sendo trabalhos impecáveis de Matt Damon e Anne Hathaway, ambos seguindo essa lógica, em especial pelo protagonista de Matt Damon, que não entregava uma atuação como esta há anos. Por outro lado, pelo lado dos que buscam o trono e/ou a verdade, Tom Holland e Robert Pattinson alternam entre momentos de fúria e maior introspecção, para seus personagens que são jovens naquele novo mundo que aquela sociedade está se acostumando. Dentro desse equilíbrio, Zendaya como Atena preenche a tela de forma até quieta, mas com presença como Atena pede, especialmente nos momentos mais delicados de Odisseu.

Créditos: Universal Pictures Brasil

Como esperado, tecnicamente, ‘A Odisseia’ tem um trabalho digno de elogios, mas especialmente pela forma como esse rigor técnico conversa diretamente com a construção da narrativa e com a própria ideia da obra. Nolan nunca utiliza a escala apenas como espetáculo. Cada plano aberto do mar, cada paisagem monumental e cada sequência de ação existem para reforçar o isolamento de Odisseu diante de um mundo que parece maior do que ele. A fotografia de Hoyte van Hoytema, com tons bem escuros nos grandes momentos e uma iluminação sempre sugestiva, transforma o Mediterrâneo em um espaço ao mesmo tempo belo e hostil, enquanto a montagem alterna momentos de contemplação e explosões de intensidade sem perder de vista a subjetividade do protagonista. A trilha sonora de Ludwig Göransson acompanha esse movimento como um eco da consciência de Odisseu, crescendo conforme seus conflitos internos também aumentam. É um filme que entende que sua grandiosidade não está apenas nas criaturas, nas batalhas ou na escala das imagens, mas na capacidade de transformar todos esses elementos em extensões do estado emocional de um homem que já não sabe exatamente quem era quando partiu de Troia. A técnica deixa de ser um fim e passa a ser uma ferramenta narrativa, fazendo com que cada escolha estética sirva à mesma ideia: uma longa viagem em busca de um lar que talvez exista apenas na memória.

‘A Odisseia’ tinha bastante expectativas, cumprindo todas elas e ainda continuando as maiores virtudes que ele havia mostrado em seu filme anterior, vencedor de 7 Oscars. Unindo o trabalho técnico impecável com uma reflexiva jornada de Odisseu em busca de retornar para casa, mas também uma busca pela redenção dos seus próprios pecados.

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Rui Filho
Rui Filhohttp://estacaonerd.com
Recifense, cinéfilo e estudante de Cinema desde 2020, graduando em Publicidade e Propaganda. Apaixonado por arte, amante dos esportes, curioso sobre tudo e sempre em busca de algo novo para assistir.
Christopher Nolan dispensa apresentações. Seus filmes acumulam 18 Oscars, incluindo duas estatuetas pessoais conquistadas por 'Oppenheimer' (2023), nas categorias de Melhor Direção e Melhor Filme, como produtor. Uma geração inteira passou a acompanhar seu trabalho a partir da trilogia Batman: O Cavaleiro das Trevas...Crítica | A Odisseia