Crítica | A Origem do Mundo

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Se fazer rir fosse fácil, fazer chorar não seria de praxe no cinema. De certo, o efeito da comédia é mais eficaz quando se fala em agregar ao espectador um escape da realidade para um local fictício onde tudo é risível – o que obviamente não existe. Tão surreal quanto isso, às vezes está no motivo de tal reação: se houvesse um meio mais acessível de criar humor, seria através do constrangimento. Apesar de não estar preso apenas a este século (o grupo Monty Python, nos anos 70, gerou alguns exemplares de filmes igualmente absurdos e embaraçosos), o método deu vida a pérolas contemporâneas. Borat e Vovô Sem Vergonha (2013) não deixam que isso seja mentira. Em 2022, ano de superação da pandemia, outro longa-metragem vem com a proposta de entreter e envergonhar. A Origem do Mundo (2022), de Laurent Lafitte, imprime ao catálogo da Netflix uma ilógica, vexaminosa e questionável produção.

Jean-Louis (interpretado pelo próprio diretor, Laffite) é literalmente um morto-vivo; no trabalho, seu coração para de bater sem nenhuma explicação. Desesperado, o advogado contacta Valérie (Karin Viard), sua esposa, com quem tem algumas diferenças no âmbito sexual, e o veterinário Michel (Vincent Macaigne), seu melhor amigo. Valérie, então, leva Jean-Louis em sua guru que, após um discurso envolvendo o cosmos e a vida do homem, promete “curá-lo”, mas com uma condição: uma foto da vagina da mãe de Jean-Louis. Será que a relutância natural do personagem será suficiente para impedi-lo de realizar uma tarefa tão inconveniente? Será que o bom senso falará mais alto? Ou será que toda aquela balela tem um fundo de verdade?

Qualquer um que se depare com a sinopse de Origem do Mundo o olhará com desconfiança. Por razões incontestáveis, a premissa da obra remete a algo tão enganoso que atinge o limite do aceitável até nos fins cinematográficos. Porém, se levada como um comédia que ronda uma conjuntura duvidosa – e até de mau gosto – conduzida de maneira despretensiosa e satirizando sua própria indecência, uma concordância para com a história repentina é capaz de brotar. Entretanto, é preciso ter ciência de que o sentido da ordem da guru pode não tornar-se totalmente compreensível, dado que fotografar as genitais de sua progenitora é algo difícil de, em qualquer ocorrência, ser entendido com normalidade. E, ao rodar tanto em volta de sua quase ofensiva narrativa, é pouco provável que exista alguma dúvida sobre um enredo dado da forma mais direta possível; a constante exposição verbal dos fatos não abre lacuna para qualquer interpretação subjetiva. O que acontece na tela possui uma clareza que afugenta os que detestam filmes de tramas rotatórias e aproxima os que prezam por seus desenvolvimentos, não importando a simplicidade – e, nesse caso, a incoerência.

O roteiro, recheado de diálogos que poderiam facilmente ocorrer na vida fora da cidade francesa do longa-metragem, é o ponto central de grande parte dos momentos divertidos que possuem eficácia comprovada. As falas, proferidas em conversas abertas sobre sexualidade, preconceito, inibição, etc., carregam a naturalidade que faz surgir uma comicidade reflexiva, fazendo pensar a razão destes tópicos serem tabus. No entanto, certos instantes assumem uma posição que ultrapassam os limites de um pudor que, embora esteja sob uma “licença poética” permitida pela comédia, é desconfortável na medida em que exagera na dose do embaraço, focando nas tentativas desesperadas de capturar a imagem da vagina de Brigitte (Hélène Vincent), alvo do trio que procura a salvação de Jean-Louis, e sua saturação conforme o tempo passando. Apesar disso, o engenho com que são criadas as armadilhas para idosa funcionam, tal qual a invenção de que Michel era ginecologista e veterinário, mas apenas se deixado de canto o acanhamento – ou os bons valores – de assistir cenas escatológicas e de cunho ou ideação tendencioso ao grotesco.

Por mais que o aspecto comunicativo se apegue nas variantes de uma variável, a busca por uma fotografia do órgão genital de Brigitte em prol da suposta sobrevivência de seu filho, sem complicações de entendimento, o mérito técnico, comandado por Lafitte, não é dos mais inovadores. Posto que o cineasta controla seu filme com segurança, seguindo por um caminho de tomadas longas, aliado a uma direção de arte que impregna as características dos personagens nas paredes, nos móveis, objetos, e afins, a inflexibilidade é observada na construção das sequências. As cores contrastantes, tal qual o azul forte da casa de Jean-Louis e Valérie e seus objetos cênicos, alguns em amarelo, são considerados elementos que enriquecem não só o visual, mas também o poder de imersão. Todavia, o responsável pela entrada em A Origem da Vida concentra-se majoritariamente na extração de um riso nervoso saído do absurdo, representado por eventos que são idealizações do inimaginável. 

Estes contextos excêntricos também estão na conta dos intérpretes principais. Os estereótipos unem-se lá, a exemplo do melhor amigo atrapalhado e da namorada louca, mas, ao decorrer da história, as nuances que pareciam requisitos para tirá-los dessa zonas de conforto, confortam-se em clichês simbolizados prontamente. Já Jean-Louis, realizado pelo próprio diretor do filme, segue como um indivíduo ranzinza e arrogante, sem poucas ondulações em sua personalidade. 
A Origem do Mundo expõe o quão originário é um longa-metragem que acompanha a execução de um desafio que faz um ser humano questionar a relevância de sua existência – até porque ter que conviver com a imagem não imaculada de sua mãe é um tanto árduo. Para exibir a empreitada, engolir a condição inusitada que a obra impõe, que conta com sequências que fazem o espectador olhar para baixo e esconder o rosto, é preciso. E a duração demasiadamente longa de ocasiões que operam sem necessitar de alongamento também. Mesmo assim, dar uma risada das vergonhosas atitudes em que se submetem os protagonistas pode não ser incomum devido à predisposição natural do Homem a gargalhar do que o acanha. Seja qual for o caso, este não é o tipo de filme que é esquecido rapidamente. Se a lembrança é guardada de forma boa ou ruim, depende se o espectador encara o bizarro como vulgaridade ou inovação.

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Revisão Crítica

NOTA
Laisa Limahttp://estacaonerd.com
Uma mistura fictícia de Grace Kelly, Catherine Deneuve e Brigitte Bardot versão subúrbio carioca do século 21.

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