qui, 18 abril 2024

Crítica | A Paixão Segundo G.H.

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      Clarice Lispector foi uma influente escritora no século 20 e adaptar alguma de suas obras para as telas não é algo inédito. Talvez o ineditismo venha mais pela abordagem que Luiz Fernando Carvalho traz para sua versão de A Paixão Segundo G.H. Uma abordagem que se aproxima ao AudioBook com um constante monólogo que dá vida ao texto de Lispector na voz de Maria Fernanda Cândido acompanhado de visuais que dançam entre o figurativo, o simbólico e o abstrato. Uma abordagem que tem lá seu sentido dentro das ideias que Lispector expressa e a forma que essas ideias tomam corpo, o texto base é denso. 

      O filme acompanha a personagem título, conhecida unicamente como G.H., em meio a um momento de profunda reflexão após a demissão de sua empregada. A situação que parece soar corriqueira se transforma no ponto de partida para uma jornada de auto análise e revelação com tons religiosos. G.H. parece estar desconfortável com sua própria existência, e palavras não serão medidas nesse fluxo de ideias.

      A entrega de Cândido ao papel é evidente, e teria que ser para que esse projeto funcionasse sendo quase que a única em tela por grande parte do filme, a atriz preenche o espaço com a intensidade que um texto desses demanda. É uma história de epifania e por mais fúteis que sejam os gatilhos de G.H. para essa revelação, o aprofundamento que existe na construção do desconforto da personagem é expressivo. Esse é um desconforto não só com o ato de ser mas também com o ser perante outros e reconhecer esses outros como sujeitos.

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       É um assunto interessante em ampla escala mas que, nos dias de hoje, pode parecer um tanto gasto dada a perspectiva aplicada nessa história. Estamos falando do ponto de vista de uma mulher branca que parece vir da riqueza, essa é a formação de um sujeito que já é a via de regra no campo da representação, não à toa o filme brinca com a transposição entre G.H. e a própria Clarice, que também parte desse lugar. Ainda assim, o que se torna interessante nessa narrativa é a habilidade de dar forma a essa angústia existencial. Tudo é muito intenso, as palavras muitas vezes não dão conta do sentimento que precisa ser expresso mas ainda assim G.H. tenta.

      O maior problema nessa adaptação talvez seja justamente a sua vontade de transposição direta do texto para a tela. Como dito antes esse é um texto denso e por mais que a entrega de Cândido no papel principal seja competente, ela não apaga um problema incontornável dessa adaptação que é o tempo. O lado visual tenta fazer um acompanhamento poético que, mesmo em sua abstração, ainda consegue trazer um elemento um pouco mais direto para os assuntos tratados mas a palavra ainda é o primeiro plano e presença constante. A questão é que fica difícil acompanhar essa narrativa sem contato anterior com o material base e se permitir sentir tudo que está sendo posto pra fora nesse fluxo de pensamentos.

      “O Horror sou eu diante das coisas”. Essa frase talvez consiga enquadrar o sentimento principal de A Paixão Segundo G.H. O desconforto existencial transborda em uma narrativa que canaliza o “corriqueiro” em um gatilho para a transformação. Ainda assim, a qualidade densa do texto de Clarice talvez acabe jogando contra o fluxo do filme, que diferente de um texto, onde o ritmo é de certa forma ditado pelo leitor, acaba prendendo seu conteúdo em um espaço e tempo determinados que talvez acabam dificultando a absorção de suas ideias. 

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Fabrizio Ferrohttps://estacaonerd.com/
Artista Visual de São Paulo-SP
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