Em uma galáxia futurista – ouso dizer, utópica – o planeta Clitópolis é habitado exclusivamente por mulheres lésbicas autossuficientes, que conseguem, inclusive, ter filhas sem a necessidade de uma figura masculina – semelhante às Amazonas. O local é uma explosão de arco-íris, glitter e tons de cor de rosa, bandeiras feministas e pró-lgbt decoram as ruas das cidades, que mais parecem o quarto dos sonhos de uma adolescente lésbica. Esse colorido cenário de suposto acolhimento, onde todas parecem se divertir sob o comando das rainhas, Anne e Leanne, é a casa de uma tímida princesa lutando para encontrar seu lugar em meio a tantas pessoas que não compreendem seu jeitinho recluso de ser.
Os hobbies da jovem Saira incluem aprender truques de mágica e passar tempo demais em seu quarto lendo comentários odiosos a seu respeito na internet. Ela é vista por suas compatriotas como alguém desinteressante e, por essa razão, a garota tem dificuldades de se relacionar amorosamente. Quando finalmente tem sua primeira namorada, ela encarna o estereótipo de sapatona emocionada e sufoca a menina com álbuns de fotografia dos melhores momentos que viveram nas duas semanas em que estiveram juntas, o que acaba culminando no término de seu único e breve namoro.
Desolada, Saira se tranca ainda mais em seu quarto até que recebe uma ligação informando que sua ex havia sido raptada e ela era a única pessoa capaz de salvá-la, para isso precisaria cumprir um rito de passagem, conjugando uma arma símbolo de seu povo e entregando-a aos inimigos: os straight white malings (ou homelins brancos héteros), retratados como folhas de papel sem traço de personalidade própria, repetidores de discursos incels. Crente de que se conseguisse salvar sua amada, o namoro das duas reataria, ela parte em uma aventura intergaláctica, explorando diferentes planetas e a si própria.
Para alcançar seus objetivos, Saira irá contar com a ajuda de uma nave espacial que se comporta com um tio inapropriado, parado no tempo e cheio de comentários “canceláveis”, mas que apesar de tudo possui boas intenções e ume amigue não-binário que lhe mostrará o que ela é digna de amor e não precisa mudar seu jeito para quem alguém goste genuinamente dela. Ela também cruzará o caminho de Blade, uma poderosa drag queen obcecada por lâminas, que será responsável por ajudá-la a conseguir obter a arma que necessita, através de um processo de auto aceitação.

O humor do longa combina referências da cultura pop – como divas da música, a saga Crepúsculo e a controversa cena de sexo de Azul é a Cor Mais Quente – com uma sátira dos estereótipos da sociedade atual, principalmente nas redes sociais. Algumas piadas funcionam, ao passo que tantas outras – a maioria – até começam bem, porém se estendem ou se explicam mais do que deveriam, perdendo o timing cômico.
O filme, apesar da curta duração, combina, sem dificuldades, essa jornada de coming of age, com gêneros como aventura, romance, fantasia e até traços de faroeste espacial, em uma animação musical. Essa mistura de estilo nunca parece perdida ou gratuita e reforça o caráter de que naquele universo, todas as tribos são bem-vindas e coexistem, sem perderem sua identidade. Até mesmo o excesso de ideias jogadas acaba fazendo algum sentido dentro da lógica ansiogênica que domina a cabeça da protagonista.


