Dois irmãos de 8 e 11 anos de idade, acostumados com a ausência paterna, são convidados a passar um dia com seu pai na cidade grande onde ele trabalha, longe da pacata vila em que habitam os meninos e a mãe. A percepção dessa figura masculina pouco presente é sentida de maneira diversa, enquanto o mais velho é mais receptivo ao pai e se mostra ansioso por passar aquelas preciosas horas ao seu lado, o mais novo, por outro lado, aborda com desconfiança a tentativa de aproximação.
A viagem ocorre em meio a um cenário de instabilidade política, no qual os militares buscam permanecer no poder, dificultando a contagem de votos da recente eleição democrática. Há uma constante tensão no ar, tanto no aspecto macro da política nigeriana, quanto no âmbito pessoal daquela família, que simboliza tantas outras. O dinheiro é escasso, pagamentos estão atrasados, não há combustível nos postos, conflitos ideológicos eclodem nas ruas, massacres são noticiados e os governantes negam sua autoria. O cenário de insegurança financeira, política e democrática é registrado a partir do olhar dessas duas crianças interioranas que nem sempre compreendem tudo a que são expostas.

É difícil não traçar alguns paralelos com O Agente Secreto, inclusive o próprio diretor reconhece as semelhanças temáticas entre os filmes, porém aqui a memória é acessada através da inocência da infância, de forma que as lembranças acerca da carnificina em um campo de concentração se misturam com as lembranças de comer um acarajé e decepcionar-se com a cebola. A descoberta de uma infidelidade conjugal é contrastada pela alegria inocente de uma criança autorizada a dar um gole numa cerveja pela primeira vez, tudo isso seguido de um anúncio de golpe de estado.
A fotografia cheia de texturas e as escolhas da montagem transportam diretamente para o cérebro daqueles meninos, fazendo com que as tensões sociais da época ganhem contornos diferentes, diante da pureza dos nossos representantes em tela. O peso do clímax é triplicado quando percebemos o que realmente aconteceu e como aquela memória foi registrada. Há uma sensibilidade muito grande do diretor para comunicar a dor de uma forma menos gráfica, porém mais impactante.
A Sombra de Meu Pai lida diretamente com a masculinidade dentro do ambiente familiar, explorando a relação cheia de nuances entre uma figura paterna e seus dois filhos. O longa reconhece os defeitos daquele homem imperfeito, sem absolve-lo nem o condenar. Ao mesmo tempo, tece comentários sobre o panorama político-social da época em que aqueles meninos descobriam seu próprio pai e sua pátria.


