Crítica | A Vastidão da Noite

Sob o pseudônimo de James Montague, o diretor Andrew Patterson, estreante em longa-metragem, financiou e escreveu A Vastidão da Noite praticamente do seu próprio bolso. O filme foi exibido no Festival de Toronto de 2019 e está disponível na Amazon Prime Video. Mas é interessante como, independente do atraso de quase um ano na distribuição, ele certamente não tem tanto em comum com o cinema de ficção científica que se faz hoje.

A premissa é básica ao ponto de tornar qualquer comentário tateante: numa cidade americana, em algum momento da Guerra Fria, dois jovens adolescentes descobrem uma frequência misteriosa pelo rádio. O simples fato de ser uma ficção científica já denuncia do que essa frequência significa, ou pode significar, mas a chave da empreitada de Andrew Patterson é, em primeira mão, a criação de clima e, logo em seguida, a dúvida – pelo menos no conceito.

O que faz A Vastidão da Noite soar, de algum modo, diferenciado é uma ingenuidade quase “Shyamalânica”, que sem dúvida orna com a época da trama, mas também com a ideia de sustentar o suspense com bastante credulidade até os últimos minutos. Aliás, ele se mantém muito fiel a essa premissa ingênua em muita coisa, desde a maneira como alguns planos bem longos criam gradativamente a expectativa por algo de outro mundo (e o espectador cínico de hoje sabe que não precisa esperar grandes revelações, nesse sentido) até os seus momentinhos mais visualmente descarados, quase piscadelas de modernidade, em que o diretor faz questão de se exibir com um plano sequência ultra coreografado e pensado para cobrir espacialmente a cena da maneira mais dinâmica possível.


Patterson, por outro lado, não consegue esconder o fato de A Vastidão da Noite se fazer sentir, curiosamente, muito curto e muito longo ao mesmo tempo; se várias sequences parecem excessivamente dilatadas (a senhorinha prolixa é o ápice), arcos e relações de personagem precisavam de bem mais material para, assim, engajar verdadeiramente o espectador lá no clímax. Atores centrais de presença forte e carismáticos fariam esse tipo de coisa incomodar menos, mas Jake Horowitz e Sierra McCormick, apesar de funcionais, definitivamente não possuem a energia propulsiva de uma Jodie Foster em Contato nem a gravidade de uma Amy Adams em A Chegada para despertar no público o misto de fascinação, anseio e medo, elementos básicos do mystery sci-fi.

De fato não é nenhuma coisa nem outra que A Vastidão da Noite procura. Nem há qualquer prenúncio de subversão da rota clássica durante a projeção – sempre uma coisa positiva quando você não tem novidades reais para colocar na mesa. E é louvável trazer de volta essa visão simultaneamente aberta ao desconhecido e desencanada de boa parte do ceticismo trazido pelo cinema de fantasia ao longo de quase 40 anos. Com certeza é um trabalho de excelentes intenções e muitas qualidades audiovisuais, que não apenas integra sua proposta formal tradicional/moderna à sua visão crédula do gênero como compreende muitos dos princípios básicos dele, mas com toda a simplicidade acaba demonstrando esforço para preencher seus quase 90 minutos. É como se fosse um primeiro ato que insiste em prometer mais do que é capaz de entregar.

NOTA

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