Crítica | A Vida Invisível

Recentemente, o cinema nacional vem sendo atacado indiretamente (de forma direta, para alguns) pelo corporativismo ideológico e visão indiferente do governo, pondo em toda e qualquer produção do gênero um “viés” de pura censura. Desde o início de sua colonização, o Brasil vem sendo infestado por uma cultura quase sem fim de um patriarcado tóxico, em todas as esferas, sobretudo, a questão política, supracitada como exemplo. Filmes nacionais recentes como Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles) e Maria do Caritó (João Paulo Jabur) tratam declaradamente de estereotipagens sociais e psicológicas criadas por este sistema social e impostas pelos remanescentes e descendentes do colonialismo que, infelizmente, ainda é um número considerável. Visto que, se estas produções trabalharam reflexos de tal cultura, Karim Aïnouz mostra, de forma crua, como toda uma geração familiar é desestruturada, como sonhos de uma vida toda são tirados e, principalmente, como toda esta herança ainda corrompe e ceifa milhares onde quer que se vá.

A vida Invisível de Eurídice Gusmão, livro de Martha Batalha, tão intenso, ganha as telas do cinema pelo roteiros de Murilo Hauser, Inês Bortagaray e de Karim Aïnouz, diretor. Um trabalho que gerou um desconforto enorme, tanto do ponto de vista ideológico, incorporando fielmente as raízes do patriarcado na década de 50, quanto pelo fato de ainda encontrar-se situações semelhantes, ou piores. Porém, o desconforto é mérito de um árduo trabalho conjunto de direção, roteiro e atuação, impecáveis do primeiro ao último segundo.

A obra retrata a história de duas irmãs: Eurídice, uma jovem estudante de piano e Guida, ambas no auge da ternura e igualmente sonhadoras. Filhas de um casal tradicional Português, têm suas vidas mudadas para sempre após um drama familiar. Percebe-se a preocupação por conta de Karim em trabalhar seus personagens, visto a quantidade de camadas trabalhadas em cada fase da história, boa parte em planos fechados, enaltecendo as atuações. Sub tramas são inseridas para tratar de reflexos comportamentais originados com cada ação de tomada por alguns personagens, como pessimismo, ansiedade, depressão e luto. A direção de arte está simplesmente fantástica, trabalhando com altas granulações e exposição saturada de cores RGB, intimamente ligadas às situações e à intensidade das mesmas. A trilha sonora é enervante e parece se encaixar ainda mais nos momentos mais hediondos. Unindo estas camadas, a inquietação é generalizada, numa experiência que torna o ar rarefeito, a respiração ofegante e a mente posta num loop de auto questionamento surreal.


Todos estão perfeitamente atuantes, mas Carol Duarte (Eurídice) e Julia Stockler (Guida) estão monstruosamente carnais em suas interpretações. Todos os cinco sentidos são elevados graças às proporções atingidas pelas personagens. Sensações de culpa, desespero, fúria, desapego e luto são impostas de forma crua e sem qualquer falta de pudor. Em menor escala, temos o mesmo representado por Gregório Duvivier, um marido reprimista, ainda que bem distante do que seu sogro (António Fonseca) é, e os exemplos positivos de amizade trazidos por Maria Manoella e por Bárbara Santos, essenciais e determinantes às protagonistas. Completando, temos a participação de Fernanda Montenegro. Claramente uma homenagem à atriz.

A vida invisível é uma aula de cinema da mais preciosa forma, elipsada em pontos de vista vislumbrados em dois séculos, cujo alvo direto é a crítica ao sistema patriarcal, mostrando como o mesmo é tóxico, indiferente e, sim, mata, e muito. Oportunidades perdidas, amores não vividos e sonhos dilacerados são tratados com maestria por Karim Aïnouz, que deixa um legado muito, muito distante do invisível.

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