Crítica | Adoráveis Mulheres

A mais nova adaptação do livro da autora Louisa May Alcott é, de longe, mas bem distante mesmo, a melhor, desde aspectos técnicos, passando por atuações marcantes e culminando num dos filmes mais equilibrados dos últimos meses. O resultado é, inquestionavelmente, a melhor obra da diretora e roteirista Greta Gerwig, que, este ano, vem sendo injustiçada na maratona de premiações. Ela traz a história de quatro irmãs, sonhadoras, de personalidades bastante diferentes, que vivem a angústia e ansiedade da transição da infância à vida adulta enquanto lutam pelos seus sonhos, unidas pelas diversas formas de amor.

Emma Watson, Florence Pugh, Saoirse Ronan, Eliza Scanlen in Columbia Pictures’ LITTLE WOMEN.

Jo (Saoirse Ronan) é uma garota à frente de seu tempo, ainda que com seu comportamento pouco convencional, tendo como principal característica o medo, não na forma tradicional, mas o da experimentação, tendo em vista experiências e frustrações de pessoas próximas. Vê na arte de escrever sua maior e melhor forma de fuga da realidade. Tem três irmãs: Meg (Emma Watson), Beth (Eliza Scanlen) e May (Florence Pugh). Meg é mais ligada aos costumes e tradições da época: ir a bailes, encontrar um bom partido, casar, ter filhos e viver seu casamento e as desventuras que possam surgir. Beth é a mais tranquila dentre as irmãs, ávida por sua família, vê na música a sua melhor e mais pura forma de expressão. May é a mais ousada, tem características de todas, inclusive de sua mãe (Laura Dern) e pai (Bob Odenkirk) e é uma excelente pintora. Em sua vizinhança, moram Laurie (Timothée Chalamet) e o Sr. Laurence (Chris Cooper), que possuem um padrão de vida mais elevado. Laurie é profundamente apaixonado por Jo, que nunca corresponde, diferente de May, que sempre olhos diferenciadamente para o garoto. A chegada da vida adulta faz com que todos tomem rumos diferentes, porém, algo trágico faz com que antigos anseios, novos amores e velhos projetos venham à tona, os reunindo novamente.

O que mais chama a atenção nesta adaptação é a riqueza do conteúdo trabalhado por Gerwig, algo que não ocorreu nas adaptações anteriores, principalmente na de 1994, a mais conhecida. A diretora esbanja profissionalismo com um roteiro impecável, com frases marcantes em grande parte dos diálogos, firmeza e precisão na câmera, alternando entre planos curtos, hora fechados, hora panorâmicos. A montagem é cirúrgica: cada quadro foi extremamente bem produzido, pensado e repensado, ao ponto de deixar 135 minutos passarem como um flash.


O filme transita entre presente e passado perfeitamente, utilizando filtros de pós-produção para diferenciá-los: sépia para o passado, quando a ternura era plena e o principal laço que unira as irmãs March e um tom mais frio, azulado, para os acontecimentos atuais, implicando a chegada da vida adulta, com frustrações, desamores e luto.

As atuações estão fenomenais: Florence Pugh é a melhor atriz do filme, atuação enervante e puramente sincera, como visto em Midsommar (2019). Aqui, Saoirse Ronan encontrou seu melhor trabalho desde Um Olhar do Paraíso (2009): emociona, inspira, faz rir e odiar. Timothée está atuante, na verdade, sempre interpreta a ele mesmo. Laura Dern, Emma Watson e Eliza Scanlen estão muito bem, porém um pouco ofuscadas pelas atrizes supracitadas.

A trilha de Alexandre Desplat, premiadíssimo compositor francês, é tocante e se torna ainda melhor por conta da excelente edição (Nick Houy, que também trabalhou com Greta em Lady Bird), supracitada. A direção de arte é linda: utiliza a sazonalidade para compor fotografias belíssimas, convergindo com trilha sonora, atuações ótimas e roteiro acertado. O figurino de Jacqueline Durran (Anna Karenina e Desejo e Reparação) provavelmente terá indicações no Oscar: perfeição.

Adoráveis Mulheres é tudo que Greta não fez em seu último Longa, Lady Bird (2017), fraquíssimo, embora seja uma autobiografia de baixo orçamento. Aliás, é bastante perceptível a semelhança entre ela, Jo (Ronan) e a autora Louisa May Alcott: são sobreviventes num mundo marcado pelo patriarcado, onde a exploração dos ideais feministas inexistem. Tal fato bastante presente na protagonista e em sua tia, vivida pela brilhante Meryl Streep, uma mulher que sobreviveu à cultura machista da sua forma, nos presenteando com uma atuação extremamente paradoxal e até metafórica. Somente esta personagem já seria motivo para se deleitar em discussões existenciais por horas. Certamente é umas das melhores surpresas dos últimos tempos. Tem estreia marcada para o próximo dia 9.

NOTA

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