seg, 22 junho 2026

Crítica | Algo Horrível Vai Acontecer

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Existe um tipo muito específico de terror que não depende de sustos ou sangue, mas da sensação de que você está prestes a tomar a pior decisão da sua vida e talvez seja tarde demais para voltar atrás. Algo Horrível Vai Acontecer, nova série da Netflix, entende isso com uma precisão desconfortável.

A premissa é direta: Rachel (Camila Morrone) e o noivo Nicky (Adam DiMarco) seguem para a casa da família dele, onde pretendem se casar em poucos dias. Um casamento pequeno, íntimo, no meio do nada, o tipo de cenário que, em qualquer outra história, já funcionaria como alerta suficiente. Aqui, é só o começo.

No caminho, os sinais se acumulam com uma insistência quase didática: um podcast sobre um serial killer que deixa sapatinhos de Barbie nas cenas do crime, uma raposa morta apodrecendo na estrada, um bebê abandonado em um estacionamento. Nada disso é exatamente sutil. Ainda assim, Rachel segue. Porque é isso que a série entende muito bem: o desconforto raramente interrompe um plano, ele só vai sendo incorporado a ele.

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Criada por Haley Z. Boston e produzida pelos irmãos Duffer, a série constrói sua tensão mais pelo acúmulo do que pelo impacto imediato. Pequenos deslocamentos, detalhes que não se encaixam, uma atmosfera que parece sempre prestes a se revelar, e nunca se resolve completamente. Não há pressa em assustar. Há interesse em corroer.

Quando o casal chega à casa dos Cunningham, o estranhamento ganha forma. A família oscila entre o acolhimento performático e uma hostilidade difícil de nomear: a mãe (Jennifer Jason Leigh), etérea e intrusiva na mesma medida; o irmão (Jeff Wilbusch), cuja presença nunca é neutra; a cunhada (Karla Crome), que parece operar em outro registro emocional; e uma irmã loira, quase uma Barbie viva, que narra histórias sobre um homem que mata mulheres na floresta com tranquilidade demais para ser confortável.

A série se apoia com inteligência nos símbolos do casamento e os distorce aos poucos, vestido, altar, votos, até que todos pareçam menos parte de uma celebração e mais de um ritual. É um movimento gradual, mas eficaz. Principalmente porque Rachel não é uma protagonista passiva. Morrone sustenta a personagem com uma lucidez inquieta, como alguém que percebe que algo está errado, mas ainda tenta enquadrar essa percepção dentro de uma lógica possível.

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Nem tudo funciona com a mesma precisão. O formato em oito episódios, por vezes, dilui a força da narrativa, estendendo situações que pediriam mais concisão. Alguns personagens surgem com potencial e acabam subaproveitados, orbitando a trama principal sem ganhar densidade própria. Ainda assim, a série mantém o interesse, muito pela capacidade de criar tensão a partir de detalhes aparentemente pequenos, que nunca são completamente inocentes.

No fundo, Algo Horrível Vai Acontecer não está tão interessada no que pode estar escondido na floresta quanto no que está em jogo na decisão central da protagonista. O que significa, afinal, escolher alguém para o resto da vida? Existe mesmo alguma forma de ter certeza? Ou toda certeza é, em alguma medida, uma construção frágil?

A série não oferece respostas confortáveis. E nem tenta.

No fim, o que fica não é exatamente o medo do que pode acontecer, mas a sensação de que talvez já tenha começado.

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