dom, 27 novembro 2022

Crítica | Armageddon Time

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Armaggedon está relacionado com o fim dos dos tempos, através de uma última batalha de destruição total. Serve também para estabelecer um grande e importante conflito. Na década de 1980, o ex presidente dos EUA, Reagan, alertou sobre a possibilidade daquela geração estar vivenciando o fim. Muitas tensões sociais que vivemos hoje foram frutos de sementes plantadas naquela época, todo o fator de privilégio, hierarquias sociais e racismo está representado aqui, no melodrama Armaggedon Time.

Na cidade de Nova York dos anos 80, uma família vive no bairro do Queens enquanto nutre o sonho americano. Novos conflitos aparecem quando o pré-adolescente Michael é separado de seu melhor amigo e matriculado em outra escola. A situação reflete questões de racismo, choque geracional e feridas de imigração. Enquanto os pais Esther e Irving tentam manter o padrão de vida da família e sonhar alto, o avô Aaron ensina o menino a seguir seu coração e fazer o certo.

James Gray é um dos responsáveis pelo melodrama moderno. A construção de mise en scène clássica combinado a visão do diretor nos pequenos gestos, na competência de seus atores e se utiliza do pouco para construir o muito. Ganhou bastante notoriedade com seus últimos trabalhos: Z- A Cidade Perdida e Ad Astra. Agora, o diretor se utiliza de uma história de amadurecimento ou Coming of Age para retratar sua adolescente em meio tantos conflitos, e entender a mentalidade de uma família norte americana naquele tempo.

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Em relação a história não existe nada que o telespectador já não tenha visto, mas isso não impede que essa autobiografia do diretor entregue algo cheio de semelhanças e reflexões. Existe toda a pressão familiar em torno do futuro do garoto Paul, ainda muito novo, mas já sendo bombardeado por perguntas como: o que você quer ser quando crescer? Quebrando as tradições, temos um rapaz com potenciais artísticos e bastante sonhador ao visitar museus e receber aulas de arte. Tudo isso combina o conflito de sonho do menino juntado ao seu primeiro contato com a noção de privilégios e preconceito.

A amizade de Paul e Johnny é o principal coração do filme, enquanto o garoto negro sofre inúmeros preconceitos e problemas familiares, temos Paul, cuja sensibilidade une os dois e acaba moldando o caráter de ambos pela amizade. Tudo isso faz Paul entender os privilégios que ele possui, e como seu amigo acaba que virando um alvo em uma sociedade tão frágil e preconceituosa. São eventos que ajudam rapidamente o amadurecimento de ambos, desde a atitudes até o sentimento de querer ser livre.

A parte família também não fica atrás, temos um embate de ideias passadas para Paul, onde o avô é a figura principal para o menino, contando histórias e ensinando lições importantíssimas sobre a vida. Desde seu passado fugindo dos nazistas, até constantemente lembra-lo de jamais esquecer o passado. Enquanto isso temos a figura do pai, que fala para seu filho “Esqueça o passado”, claramente não leva jeito para esse tipo de vida familiar, mas tenta entregar o melhor para seus filhos, desde comida na mesa até educação de ponta. O ator Strong traz aquela violência típica da sociedade da época(destaque para a cena da banheira), mas também uma justificativa da mentalidade formada nas famílias daquele tempo. A mãe, vivida pela Anne Hathaway, traz muito amor dela para seu filho. Nos momentos de conflito a atriz entrega bastante, tanto em corpo quanto fala, muita força envolvida aqui. O principal destaque é o avô, Anthony Hopkins, ele sustenta toda a leveza, fofura e sentimento desse núcleo familiar. São passagens que servem não apenas para o desenvolvimento de Paul, mas também um espelho para o público daqueles momentos que ficam conosco para sempre.

Em meio tanto deslumbre melodramático, o filme carece de dar mais atenção para a vida do garoto Johnny, é justificável que a obra escolha focar mais na vida de Paul e sua família, mas o personagem é tão interessante e traz tanto dilemas para a trama geral que a falta de mais conteúdo sobre sua família e seu modo de vida atrapalha na noção geral das motivações.

A representação da sociedade americana e toda essa busca pelo American Dream é muito bem encenado durante o filme. Existe mesmo até uma cutucada envolvendo a família Trump e todo o futuro que essa sociedade elitizada irá deixar marcado, fruto desse preconceito enraizado. A sensação final deixada para Paul é de que tudo aquilo é apenas um fiapo das injustiças do mundo, ele tem muito mais para descobrir.

Armageddon Time é mais um excelente melodrama de James Gray, mostra toda a competência que esse diretor consegue ao se utilizar de um bom elenco e uma interessante história para se contar. Essa escolha íntima do cineasta agregou mais ainda para sua curta, porém rica carreira. No final das contas é um reflexo dessa sociedade problemática dos tempos antigos que pirou mais ainda nos atuais. E além disso, é uma honesta história de dois garotos sonhadores com destinos totalmente diferentes.

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