A longa cena de abertura registra o diálogo entre pai e filho, filmado com uma câmera trêmula na mão, para evocar o clima de suspense que permeará todo o longa, ainda que esse recurso em si seja prontamente abandonado. Nesse primeiro momento, o protagonista aparece sempre de costas, inacessível ao público. Seu rosto só nos será revelado na próxima cena, em que ele nada, completamente despido, ao lado das baleias em alto mar. É como se de início quisesse esconder-se tanto do espectador, quanto da situação desconfortável de conversar com o pai. Dentro do sonho, contudo, não consegue ter esse domínio, e acaba revelando-se por inteiro, mergulhado na imensidão do oceano.

Buscando desvendar os mistérios em torno da morte de seu avô, ele segue caminho até uma pequena cidade no litoral de Santa Catarina. O diretor explora a ambiência do local para criar a mitologia de seu filme, que se passa nessa vilazinha de pescadores e pessoas que vivem do turismo sazonal, com seus segredos e superstições. Se por um lado, esse mistério é bem construído e desperta a atenção de quem está assistindo, por outro, as investigações e as soluções encontradas para resolvê-lo são muito mal trabalhadas: ora chegam informações pela metade, em diálogos desconexos, para no final serem inteiramente reveladas em um monólogo bastante expositivo, que explica em minúcias aquilo que já estava óbvio. E o desfecho do enigma não chega a ser nem surpreendente, nem tão bom assim. Apesar disso, a jornada para chegar até ele é interessante o suficiente para segurar o interesse no filme. O clima de suspense constante e a atmosfera do litoral catarinense despertam a curiosidade quanto ao local e suas crenças. Se os diálogos são ruins, a imagem é forte o suficiente para compensar.
Talvez tenha faltado tempo, ou domínio dele, para que o diretor conseguisse trabalhar melhor algumas questões que podem acabar parecendo meio jogadas dentro da narrativa – o fato dele não memorizar rostos, o romance frustrado de seu passado e até o relacionamento atual. Mas, mesmo essas passagens, por mais episódicas que sejam, contribuem eficazmente para a construção da lore. A cena da ex-namorada, especificamente, rende ainda um momento bem cômico. Barba Ensopada de Sangue é um thriller que começa bem e tropeça um pouco ao longo do caminho, ainda assim, funciona o suficiente para entreter quem está do outro lado da tela, gerando uma curiosidade genuína em qual será o desfecho daquela história. Infelizmente, não faz muito com isso e o filme termina de forma bem menos impactante do que prometia.


