Crítica | Beckett

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Beckett, o mais novo longa da Netflix, conta a história de um homem que, após um acidente de carro em suas férias na Grécia, descobre uma conspiração política em meio a instabilidade social no país. A maior qualidade, e também seu maior defeito, é reconhecer que a direção de Fernando Cito Filomarino não tem um caminho traçado e transita entre diversos gêneros quando o convém. Ao passar por estruturas dramáticas que funcionam isoladamente, mas que juntas evidenciam uma superficialidade em relação ao tom, o filme busca centrar em situações que se desenvolvem de maneira protocolar e simplista, deixando de se relacionar como um todo.

Netflix/ Divulgação

Como apresenta os três atos como três filmes, Beckett parece buscar em cada parte uma relação franca com o desenvolvimento de cada um. Na primeira temos um drama de luto centrado na perda da namorada de Beckett durante o acidente. A culpa o consome de jeito avassalador e fica claro como Filomarino tomou cuidado para construir momentos entre o casal que resultam no peso da perda. São momentos cativantes, sensíveis e que se resolvem de maneira direta. Quando entra na parte do luto, explora muito bem os espaços, buscando materializar o sentimento de opressão contrastando o claustrofóbico com o grandioso. Essa sensibilidade aparente talvez seja o momento que mais temos contato com a obra e que a mesma permite se dar tempo aos acontecimentos e seus personagens – John David Washington se firma como um dos melhores atores da atualidade.

A quebra dessa temática surge de maneira abrupta. O drama de luto se reverte em um thriller de caça que surge de maneira a fazer sentido dentro do universo, mas que apresenta situações tão protocolares a ponto de ficar previsível rápido. Ao que se segue, a dinâmica imita uma reta, do ponto A até o ponto B, sem fazer questão de contemplar os diversos assuntos rondados, muito menos de desenvolver aspectos antes apresentados, como a questão psicológica, por exemplo. Serve como um dispositivo que ora vira uma chave e se transforma, ora vira outra coisa. Se assumisse uma artificialidade provocada pela falta de manejo do diretor, poderia se tirar algo interessante, mas a quebra cada vez mais perceptível de tom não se reflete em sua decupagem mais crua e intencionalmente realista. Fica mais clara essa desconjuntura quando a trama de conspiração política vai se tornando algo semelhante a uma paródia, mas que nem os atores, e nem o filme, parecem saber disso.

BECKETT (2021) John David Washington as Beckett. Cr: Yannis Drakoulidis/NETFLIX

O resultado são três filmes em um só que não conversam entre si e, ao tentar abraçar diversas abordagens, evidencia uma falta de planejamento e uma amnésia seletiva em relação aos que era e o que pretende ser. É curioso como, indiretamente, Beckett se torne um comentário da própria Netflix sobre si mesma e sua forma de trabalhar com algoritmos. É como se o filme, enquanto produto exibido pela plataforma, ganhasse aspectos de uma autocrítica que expõe as fragilidades do mercado, justamente por querer ser tudo e não ser nada ao mesmo tempo. Para o bem ou para o mal, a piada se faz presente e a relação entre produto e produtora nunca esteve tão próxima.

Revisão Crítica

NOTA
Gabriel Lunahttp://estacaonerd.com
Jornalista que se aventura no mundo da crítica de cinema. Gosto de café e filme em preto e branco.

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