Gore Verbinski, conhecido por dirigir três filmes da franquia ‘Piratas do Caribe’ e também ‘Rango’ (2011), retorna para a direção depois de dez anos desde seu último filme – ‘Cura de Bem-Estar’ (2016). O filme é estrelado por Sam Rockwell e tem Haley Lu Richardson e Juno Temple como coadjuvantes.
Vindo do futuro buscando salvar a humanidade, “o homem do futuro” (interpretado por Sam Rockwell) assalta uma lanchonete em busca do grupo perfeito de pessoas que irá derrotar a Inteligência Artificial e salvar o futuro da humanidade.
Em ‘Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra’, Gore Verbinski parece menos interessado em narrar uma ficção científica convencional do que em construir uma cápsula sensorial do esgotamento contemporâneo. A obra opera como sátira, aventura, comédia e colapso nervoso ao mesmo tempo. Seu verdadeiro tema talvez não seja tecnologia, inteligência artificial ou futuro, mas algo mais íntimo e atual, a mente humana transformada em campo de batalha da atenção. O diretor entende que certas críticas sociais perderam potência quando feitas apenas por diálogo ou discurso. Por isso, de forma inteligente, desloca o comentário para a forma. O filme não fala sobre excesso apenas no conteúdo, mas se transforma neste excesso. A montagem alternada entre presente narrativo e fragmentos contextuais dos integrantes do grupo imprime uma lógica de interrupção constante, quase uma dramaturgia de feed infinito. O espectador, nesta dinâmica, é empurrado de bloco em bloco, de informação em informação, numa aceleração que lembra menos o cinema clássico e mais o gesto automático de deslizar o dedo pela tela.

Essa escolha de decupagem traduz um tipo de subjetividade contemporânea incapaz de permanecer tempo suficiente em uma única coisa. O passado dos personagens surge em pequenos capítulos, identidades são entregues em porções condensadas, traumas aparecem como cards emocionais. Em vez de pessoas que se revelam aos poucos, temos perfis que carregam biografias editadas. O longa parece sugerir que até nossa intimidade foi reorganizada pelo ritmo da plataforma. O trabalho sonoro, especialmente a edição de som, reforça bem isso. Em momentos decisivos, especialmente nas cenas de perseguição, o desenho de som adota uma textura cartunesca, elástica, quase de animação. Há um prazer imediato nisso, a ação ganha impulso, o humor cresce, o filme corre. Mas o efeito mais interessante é que, ao tratar o perigo com sonoridade lúdica, Verbinski comenta um mundo em que tudo precisa ser entretenimento para existir. A tensão vira “gag”. O risco vira espetáculo. A violência se aproxima do meme. É a lógica de uma cultura capaz de consumir catástrofe entre um vídeo engraçado e uma receita de quinze segundos.
Assim também, a fotografia trabalha em chave igualmente irônica, tendo momentos em que enquadramentos grandiosos e iluminação quase solene envolvem discursos banais, exagerados ou ridículos. O cinema empresta linguagem épica a falas que não sustentam grandeza alguma. O contraste desmonta uma das marcas do presente: a inflação performática do discurso. Vivemos cercados por pessoas que falam como se anunciassem verdades históricas quando, muitas vezes, apenas vocalizam banalidades embaladas por autoconfiança. O filme captura isso com precisão ao tornar cada fala um pequeno palanque visualmente heroico e intelectualmente vazio. Esse nivelamento produz boa parte da comicidade do filme. Quando todos habitam o mesmo grau de estranheza, o riso deixa de apontar para um alvo isolado e passa a circular pelo ambiente inteiro. O absurdo não está em um indivíduo, mas no ecossistema social como um todo. O deslocamento do mundo virou a regra, não mais a exceção. Lembrando até, em determinados momentos, momentos de ‘Black Mirror’.
Gore Verbinski constrói, assim, uma sátira contemporânea que contamina sua própria linguagem com os sintomas que denuncia. O resultado é um filme que acelera para falar de aceleração, que exagera para retratar o exagero, que ri enquanto descreve um esgotamento real.


