qui, 1 dezembro 2022

Crítica | Carvão

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Existe muita verdade quando o cinema brasileiro explora o dinamismo de uma família. Em 2022, tivemos Marte Um, mostrando os diferentes objetivos de cada integrante da família, desde sonhos até medos, e como cada um interfere nesse núcleo. Agora, em Carvão, primeiro longa de Carolina Markowicks, explora de forma semelhante á dinâmica e contradições dessa típica família tradicional brasileira, mas será mesmo tão tradicional assim?

No interior do Brasil, uma família que se esforça para cuidar de seu patriarca tem suas vidas mudadas quando uma enfermeira oferece um acordo diabólico: colocar o mais velho da família para descansar e hospedar um traficante argentino que precisa urgentemente de um lugar para se esconder.

É interessante de notar toda essa brincadeira envolvendo a chegada do traficante gringo, hospedado na casa da família. Ele jura o filme inteiro que é a pessoa mais afetada por toda aquela situação, mas pelo contrário, ele é o menos afetado.  Sua estadia desperta desejos reprimidos de todos os membros e ainda aumenta o conflito que cada um tem entre eles. No pai, os desejos escondidos, talvez o personagem mais incomodado com toda aquela situação. A mãe, frustrada e ignorada pelos membros das família, vê aquela chance como algo para despertar desejos e movimentar sua dura vida. E o filho, na falta de uma figura paternal presente(de verdade!), vê em um traficante argentino refugiado uma figura de afeto e carinho, tão pouco demonstrada em seu lar.

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O roteiro de Carvão é muito interessante, ele equilibra de forma inteligente as características de cada personagem, não existe algo unilateral aqui. Em diversos momentos vamos rir das situações do cotidiano, seja algum mal entendido ou até diálogos muito bem humorados entre os personagens, mas em outros vemos a dura e chocante realidade, mesmo nos momentos que tudo parece ir bem, chega a hora da verdade, onde esses personagens precisam escolher. Quando parece estabelecer uma zona de conforto entre eles, chega a novidade, o conflito. Toda essa mistura de desejos e sentimentos que cada um apresenta eleva a experiência, sensação do imprevisível mesmo.

A escolha visual do filme é acertada, o uso dos ambientes são ótimos, tanto dentro como fora, ali acontece tudo: medo, inveja, risos, amor, etc. A carvoaria, principal meio de produção da família é sinistra, nosso olhar de um simples fogo muda após o tempo do filme passar. Em reflexo disso temos os ambientes comuns da casa que entregam muita autenticidade para esse meio de vida, uma cortina perfeita para esconder qualquer suspeita que poderia estar acontecendo ali. O trabalho de caracterização é perfeito, as pessoas constantemente suadas, sujas e cansadas.

O elenco é insubstituível, Maeve Jinkings está perfeita como essa mulher chefe de casa, desvalorizada, mas com desejos reprimidos e talvez a pessoa mais perigosa daquela casa, que não tem medo de fazer o difícil. Rômulo Braga é o mais misterioso e calado aqui, mas isso não impede o desgosto e pena que temos do personagem, uma contradição de sentimentos gigantes. A surpresa maior aqui: Jean de Almeida Costa, trabalho incrível que rouba a cena, toda essa inocência, inteligência e humor que envolve o menino é incrível, o maior responsável pelo diversos momentos de risos que o filme causa, o maior questionador de toda essa hipocrisia da família. E ainda temos César Bordón, interpretando o traficante, onde por mais que seja o homem mais perigoso daquela casa, ele não consegue causar isso naquela família em momento algum, ele é engolido pelas regras e dificuldades passadas da região.

Carvão é uma baita surpresa, principalmente em sua história, onde não tem medo de chocar, e na hora que precisa pegar pesado, ele pega. Um bom filme navega sobre diversos sentimentos, e esse consegue, traz angústia, humor, tristeza, raiva. Vamos julgar esses personagens a todo momento e não tem problema algum, o núcleo familiar está ali para ser remexido. É um filme ousado, ele insere isso de forma natural e acreditamos nas possíveis decisões de seus personagens, tanto ruins como boas. São camadas e mais camadas que surgem para aumentarem nosso vínculo com cada um deles, o meio em que vivem deixa muito claro a real situação do nosso país chamado Brasil.

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