Ao leitor, um esclarecimento que é, também, um pedido de desculpas. Não peço isso, aliás, como se a obrigação de um crítico fosse a de julgar um filme (longe disso, pois o exercício crítico vem de uma reflexão e provocação de diálogo), mas pela incapacidade de escrever algo muito mais elaborado sobre Caso 137, filme de Dominik Moll. Por isso, esse texto cumprirá sua função mais básica: a de fornecer informações básicas acerca da natureza narrativa e estética do filme.
O longa-metragem parte de fatos sobre os protestos dos chamados “coletes amarelos”, um movimento de protesto que começou com manifestações na França em outubro de 2018. Em uma dessas manifestações, um jovem é ferido por um disparo de bala de borracha. Stéphanie (Léa Drucker), uma investigadora da Inspeção Geral da Polícia Nacional, é encarregada de apurar o caso. Nesse processo, ela se aprofunda mais sobre os regimes de investigação e punição de policiais envolvidos em casos de violência.
A partir disso, é preciso assinalar que a abordagem de Moll opta por um caminho de assepsia narrativa que, embora tecnicamente competente, flerta com o vazio temático ao se apresentar como uma dissecação mecânica do caso. O filme ressalta as camadas burocráticas da investigação policial, mas parece esquecer que para tal estudo funcionar, ele precisa estar acompanhado de um exame do corpo social que o movimenta.
Essa escolha isola a narrativa em uma redoma de vidro, pois o longa não se debruça sobre as questões políticas que fundamentaram o movimento dos “coletes amarelos”, nem tenta traçar um paralelo mais incisivo com o momento histórico atual, onde a violência institucionalizada e o abuso de poder são debatidos exaustivamente em todas as esferas globais. Ao focar estritamente no “como” a investigação ocorre, Moll abdica do “porquê”, faltando-lhe o interesse genuíno de provocar o espectador para além da superfície.

É inegável que o filme possui virtudes formais: a montagem, por exemplo, é certeira, ditando um ritmo que simula a urgência da apuração dos fatos sem nunca perder a clareza espacial ou temporal. Nesse cenário de frieza, Léa Drucker surge como a âncora necessária, trabalhando a interioridade de Stéphanie e construindo uma personagem que não precisa de grandes arroubos para demonstrar seu estado de espírito; ela mescla a obstinação profissional com uma crescente decepção ética, trazendo uma atuação no olhar e no cansaço diante das contradições do sistema. O rosto de Drucker na última cena, carregado de uma melancolia lúcida, faz entender perfeitamente sua premiação no César deste ano (o Oscar francês), pois ali ela resume o fracasso humano de uma engrenagem que, mesmo funcionando mecanicamente, ignora o clamor das ruas.
No entanto, o grande problema de Caso 137 reside justamente naquilo que ele acredita ser sua maior qualidade: a retidão. Ao ser um filme “muito certinho”, ele acaba por não provocar nada além da reação igualmente mecânica de um crítico ou de um espectador atento que reconhece a correção da denúncia, mas sai da sessão sem qualquer interesse maior. Essa posterior indiferença é o maior risco de uma obra que trata de temas tão inflamáveis; quando o cinema se torna burocrático demais para retratar a própria burocracia, ele corre o risco de se tornar cúmplice do silêncio que finge criticar – o que não é o caso aqui, mas que é possível de incorrer em outros que trabalham de forma similar.
A neutralidade estética pode se tornar tão perigosa quanto o erro que ela tenta investigar, deixando apenas o rastro de uma competência gélida. No final, o que resta é a sensação de uma oportunidade perdida, trocada por uma narrativa higienizada que, por medo de errar ou de se posicionar, acaba não dizendo nada que já não soubéssemos de antemão por meio de manchetes frias de jornal.


