Há atores que envelhecem. E há atores que simplesmente viram instituição. Kevin Kline é do segundo tipo, e Clássico Americano sabe disso desde o primeiro surto público do seu protagonista.
A nova série do MGM+, que estreia neste sábado (11) no Brasil, não perde tempo fingindo modéstia: joga seu astro no centro do palco, bêbado, vaidoso e absolutamente insuportável. Richard Bean, um titã da Broadway em modo autodestruição, é o tipo de homem que confunde intensidade com genialidade e, por muito tempo, se beneficia disso. Até deixar de ser charmoso. E passar a ser só constrangedor.
Viralizado, humilhado, exilado e, inevitavelmente, de volta para casa, ele retorna à pequena cidade onde tudo começou, num movimento que poderia soar como mais um ritual previsível de redenção. E, em alguma medida, é. Mas Clássico Americano, felizmente, tem a decência de não fingir que está reinventando nada; em vez disso, trabalha dentro de um terreno conhecido: o teatro como espelho, a família como campo minado e o ego como espetáculo permanente.
Há algo deliciosamente antiquado aqui, e isso está longe de ser um problema. A série parece saída de um tempo em que personagens podiam ser irritantes sem pedir desculpas e histórias podiam ser previsíveis sem se tornarem vazias. Esse conforto levemente fora de moda funciona, o que já é mais do que se pode dizer de muita série atual, porque o elenco entende exatamente o tipo de jogo que está jogando.
Laura Linney surge com a precisão de quem já fez isso vezes o suficiente para saber que não precisa provar mais nada, o que, naturalmente, a torna a pessoa mais interessante em cena. Jon Tenney faz do irmão um contraponto tão compreensivo que, em qualquer outra série, correria o risco de desaparecer, aqui, por algum milagre de timing, não. Já Nell Verlaque traz uma espontaneidade que revitaliza cada cena em que aparece, com a leve irritação de quem claramente sabe que está roubando o foco.
O teatro não aparece como metáfora, aparece como problema. E, ocasionalmente, como solução. Nem sempre na mesma cena. A decisão de montar Our Town como tentativa de salvação, artística, familiar e pessoal, poderia facilmente escorregar para o didatismo, mas a série evita essa armadilha ao permitir que os conflitos contaminem a encenação, transformando ensaios e apresentações em extensões diretas das tensões que ninguém ali consegue resolver fora do palco.
Nem tudo, no entanto, mantém o mesmo equilíbrio. Há momentos em que o humor simplesmente passa direto pelo ponto e outros em que o drama insiste em ficar além do necessário, como um ator que não percebeu que a cena já acabou. As oscilações de ritmo aparecem, não chegam a comprometer, mas também não passam despercebidas.
Ainda assim, quando a série acerta, há um prazer evidente em acompanhar essas dinâmicas, seja nas leituras de mesa cheias de energia, nas discussões familiares que começam como comédia e terminam desconfortavelmente perto de algo real, ou nas cenas em que Kline, sozinho, transforma arrogância em algo surpreendentemente humano, o que é impressionante, considerando o quanto Richard se esforça para permanecer insuportável.
No fim, Clássico Americano não está interessado em reinventar o formato nem em oferecer grandes revelações. Sua ambição é mais simples, e, hoje em dia, isso já soa quase como um pequeno ato de rebeldia. O interesse não está no que acontece, mas em como, e em quem, sustenta cada momento até que ele finalmente aconteça.
É previsível, sim. Mas do tipo que sabe exatamente o que está fazendo com isso.


