qua, 12 agosto 2026

Crítica | Colegas e o Herdeiro

Publicidade

Sequência de um dos maiores sucessos do cinema brasileiro, Colegas e o Herdeiro chega aos cinemas como o último trabalho do renomado produtor Marçal Souza (1957-2023). Após a morte de um hoteleiro em Punta del Este, no Uruguai, Stalone, um jovem ator com síndrome de Down, acredita que o hotel é uma herança de sua família e que é o legítimo herdeiro da propriedade. No seu caminho, porém, está Magrelo, um jovem autista que foi adotado e criado como filho pelo proprietário falecido. Sem esperar pela leitura do testamento, Stalone convida seus amigos do Instituto Santa Lúcia para passarem uma temporada de férias no local. A trupe, então, cai na estrada para viver essa aventura cheia de reviravoltas e descobertas.

Imagem: H2O Filmes/Reprodução

Lançado comercialmente em 2013, após uma longa viagem por festivais de cinema nacionais e internacionais, “Colegas” é tanto uma carta de amor do seu realizador Marcelo Galvão para o tio – que tinha Síndrome de Down – com quem conviveu toda a infância assim como uma verdadeira jornada fora da curva, que não pretendia somente falar sobre pessoas com Trissomia do Cromossomo 21, mas sim criar uma verdadeira aventura com elas, repleta de emoção, sorrisos e homenagens à sétima arte. Enquanto o primeiro filme é levemente inspirado em clássicos como Thelma & Louise, Bonnie e Clyde e Pequena Miss Sunshine, Colegas e o Herdeiro, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (13/08) parece ter saído de um longa-metragem do renomado diretor Wes Anderson, tanto pela sua forma quanto pelo dinamismo do seu conteúdo.

Aqui, por outro lado, a narrativa enfrenta alguns problemas no seu storytelling, que altamente explicativo e, às vezes, não parecendo fazer um bom uso de suas gloriosas imagens que estão sempre acompanhadas de uma narração que é bem interpretada, mas que se auto explica demasiadamente, ao contrário do narrador de Lima Duarte no primeiro filme.

Publicidade

Contando novamente com a direção e roteiro de Marcelo Galvão, Colegas e o Herdeiro retoma a ideia de partir de um roadmovie repleto de acontecimentos inusitados, contando agora com uma linguagem mais puxada para o cômico e o lúdico, o que despertam uma genuína simpatia à princípio, ainda mais no público para o qual o longa é destinado. No entanto, a história base dessa sequência, que funcionaria por si só (mesmo que já tenha sido contada com outros personagens em 2013), precisa dividir o tempo de tela com a narrativa que intitula o longa-metragem, na qual dois dos 3 protagonistas do filme antecessor (Stalone e Aninha), agora administradores de um luxuoso hotel no Uruguai, em conflito com Magrelo, um jovem autista que pensa ser o verdadeiro Herdeiro do estabelecimento.

Imagem: H2O Filmes/Reprodução

Temos em Colegas e o Herdeiro dois filmes que acabam tendo dificuldades de comunicação entre si e com os espectadores. Enquanto o núcleo do novo (e ótimo) elenco jovem tenta se sobressair, o outro que envolve os acontecimentos no hotel e os conflitos entre Stalone e Magrelo (vivido pelo jovem e promissor Henrique Fernandes) – trama essa que não parece ser bem aproveitada, apesar de ser a mais interessante do longa -, fica em um segundo plano desconfortável e parece adotar escolhas questionáveis no humor de constrangimento e na leve “vilanização” de Stalone e Aninha, que voltam a ser interpretados pelos carismáticos Ariel Goldenberg e Rita Pokk, atores esses que queriam dar o seu melhor e ainda mais além, porém o pouco tempo de tela mal permite; o mesmo acontece com Márcio, de Breno Viola, que tem um papel pequeno, mas significativo, na sequência. Chega a ser decepcionante ver o trio de protagonistas do primeiro filme, que possuíam uma dinâmica tão pura e verdadeira, escanteados nessa sequência. Muito essa continuação teria a ganhar se o investimento textual tivesse ido inteiramente na rivalidade entre Stalone e Magrelo, com Aninha e Márcio (que sequer chega a interagir com os amigos do primeiro filme) interferindo e, no final, desenvolvendo uma mensagem mais convincente sobre amizade e família do que foi concebida para o produto final.

No entanto, a nova história dos 4 amigos que se aventuram para chegar no hotel uruguaio supostamente comandado por Stalone resulta em ótimos momentos de humor e até referências à clássicos da Sessão da Tarde, como “Os Gonnies”, além de expandir a representatividade com maestria e o genuíno toque de afeto que fez com que o longa antecessor de Marcelo Galvão se tornasse um grande sucesso. Em Colegas e o Herdeiro, embarcamos na viagem com Fernanda (Rafaela Fontanetti), Igor (Gabriel D’Lazzari), Letícia (Luiza Godoi) e Duda (João Victor de Paiva Bittencourt), personagens que expandem a franquia e que não têm medo de zombar da cara de capacitistas, faltando apenas uma trilha sonora marcante (nível Raul Seixas) para embelelzar ainda mais as suas aventuras. Apesar da trama ser contata de maneira simplória, é inegável o entusiasmo da direção e do elenco para fazer Colegas 2 acontecer.

Publicidade

Com um texto menos cuidadoso que o seu antecessor, mas, ainda assim, repleto de artifícios que criticam sutilmente o capacitismo, e uma narrativa que apresenta boas ideias para o futuro, apesar de deixar o passado de escanteio, Colegas e o Herdeiro é uma produção que vangloria a representatividade neurodivergente e, tal como o primeiro filme, o cinema.

Publicidade

Publicidade

Destaque

Crítica | Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte

A diretora Jane Schoenbrun traz consigo em sua filmografia...

Crítica | O Fim da Rua

Quando se fala de filmes com dinossauros e de...

Homem-Aranha | Marvel anuncia nova série animada do herói

A Marvel Studios anunciou nesta sexta-feira (12), durante o Disney+ Day,...
Sequência de um dos maiores sucessos do cinema brasileiro, Colegas e o Herdeiro chega aos cinemas como o último trabalho do renomado produtor Marçal Souza (1957-2023). Após a morte de um hoteleiro em Punta del Este, no Uruguai, Stalone, um jovem ator com síndrome...Crítica | Colegas e o Herdeiro