A terceira temporada de Com Carinho, Kitty desacelera, em vez de tentar se reinventar. Depois de dois anos apostando em reviravoltas sentimentais quase ininterruptas, a série retorna ao KISS com uma abordagem mais contemplativa, ainda caótica, mas menos ansiosa para se provar.
Kitty Song-Covey (Anna Cathcart) entra em seu último ano escolar tentando organizar sentimentos que nunca foram exatamente organizáveis. O roteiro acompanha esse momento como uma transição: decisões sobre o futuro surgem, relações se transformam, e o grupo de amigos começa a encarar a ideia de despedida.
O retorno ao ambiente escolar reposiciona a narrativa. Após uma segunda temporada dispersa em tramas paralelas, a série recupera ritmo nas interações cotidianas. Conflitos menores, mal-entendidos e aproximações funcionam melhor quando ancorados nesse espaço.
Ainda assim, o excesso de tramas acaba comprometendo o desenvolvimento. Conflitos surgem e se resolvem rapidamente, e acontecimentos importantes ficam fora de cena, como se a série evitasse acumular consequências. Em vários momentos, a construção emocional é interrompida antes de se consolidar, como se recuasse sempre que essas consequências começam a ganhar peso.

Essa fragilidade aparece com mais clareza nos romances.
A relação entre Kitty e Min Ho (Sang Heon Lee) assume o centro da trama. Há química e expectativa, mas o desenvolvimento não sustenta o peso que a própria série sugere. Certas resoluções diluem o impacto emocional, reforçando essa tendência de evitar levar os conflitos às últimas consequências.
Ao redor, os personagens perdem consistência. Alguns passam a cumprir funções muito específicas, enquanto outros desaparecem por longos trechos. O resultado é uma linha dramática irregular, que fragmenta a narrativa e reforça a sensação de dispersão.
O senso de comunidade sustenta a temporada. As interações entre Kitty e seus amigos seguem como o ponto mais sólido. Yuri (Gia Kim), Q (Anthony Keyvan) e Dae (Choi Min-yeong) mantêm uma dinâmica leve e funcional. É nos momentos coletivos que a série encontra seu melhor equilíbrio.
A representação LGBTQ+ permanece integrada ao cotidiano dos personagens, sem se isolar como discurso. Esse continua sendo um dos aspectos mais consistentes da produção.
Nem todas as escolhas têm o mesmo controle. Novos conflitos recorrem, às vezes, a caracterizações simplificadas, criando antagonismos pouco orgânicos. O aumento de tensão nem sempre vem acompanhado de maior complexidade.
Há também apego ao passado da franquia. As referências a Para Todos os Garotos que Já Amei, incluindo o retorno de Lara Jean (Lana Condor), funcionam como acenos afetivos, mas acrescentam pouco à progressão narrativa. Em alguns momentos, a série parece mais interessada em recuar do que em avançar, recorrendo à familiaridade como forma de evitar riscos.

Ainda assim, o charme se mantém.
Com Carinho, Kitty nunca buscou realismo. Coincidências, exageros e decisões impulsivas fazem parte da sua identidade. A temporada preserva esse tom, mesmo com oscilações.
Os episódios finais organizam os arcos de forma satisfatória, ainda que previsível. Há encerramento, mas sem acúmulo dramático, como se a resolução importasse mais do que o percurso até ela.
No fim, a temporada se sustenta pelo carisma e pelas relações, mas parece sempre parar um passo antes de desenvolver plenamente suas próprias ideias.
Não é uma reinvenção, nem tenta ser. E talvez funcione melhor justamente quando assume o que é: um caos romântico adolescente, leve, exagerado e difícil de largar.


