Crítica | Confissões de uma Garota Excluída

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Sentir-se excluído em algum momento é um ritual do ser humano. Viver sozinho, entretanto, acaba sendo uma opção sua – ou um pouco do resto. Se em Donnie Darko (Richard Kelly, 2001) aprendemos com Frank (Jake Gyllenhaal) que abraçar sua solitude e sua própria personalidade forasteira é uma escolha particular, em As Vantagens de Ser Invisível (Stephen Chbosky, 2012), é visto que estar de fora deixa rastros para além de uma condição momentânea. Embora distintas em seu propósito, as duas obras tratam do não pertencimento de adolescentes em seus ambientes de convívio, pauta abordada também na nova adaptação da Netflix de um livro escrito por Thalita Rebouças, Confissões de Uma Garota Excluída (Bruno Garotti, 2021). Aqui, a análise flutua entre ambos os pólos: aceitar ou não ser deslocada? Eis a questão.

CONFISSÕES DE UMA GAROTA EXCLUÍDA (L TO R) GABRIEL LIMA as DAVI, KLARA CASTANHO as TETÊ, MARCUS BESSA as ZECA in CONFISSÕES DE UMA GAROTA EXCLUÍDA movie. NETFLIX © 2021

Teanira (Klara Castanho), ou Tetê, é uma jovem de 15 anos que se muda para a casa dos avós por conta do desemprego do pai e precisa entrar em uma nova escola. De seu nome incomum até a extrema sudorese de que sofre a menina, as razões para que a personagem seja alvo de bullying são inúmeras se pensado com a mente de um agressor. Neste local, a responsável pelo rechaçamento de Tetê é Valentina (Júlia Gomes), a popular da área. Dentre tentativas de sobreviver ao ensino médio da forma mais neutra possível e aceitar sua persona fora dos padrões, a protagonista entra em um embate com sua própria mente, a família julgadora e a sociedade. Isso sem perder sua essência.

Uma narração em voice over, como é comum neste tipo de filme, realiza um passeio pelos pensamentos de Tetê acerca de sua realidade, contextualizando o espectador de quem é a jovem. Embora seja um recurso um tanto datado e cômodo, sua descrição por meio do artifício encorpa uma genuína empatia e entendimento de seus trejeitos e suas peculiaridades, que tornam-se parte de toda uma composição de personagem que a faz crível. A história, aliás, se faz igualmente plausível, independente de seus vislumbres surreais que configuram qualquer trabalho ficcional. A identificação com os eventos, inclusive para alguém que já passou da fase juvenil, acontece a partir da mesclagem de sentimentos dos que estão no longa-metragem e seus consequentes “dramas” que parecem imortais na adolescência. Para os que ainda estão neste momento, curtir sem querer uma foto na rede social Instagram parece uma tragédia. E é em instantes assim que o filme constrói uma credibilidade.

CONFISSÕES DE UMA GAROTA EXCLUÍDA (L TO R) KLARA CASTANHO as TETÊ, LUCCA PICON as ERICK in CONFISSÕES DE UMA GAROTA EXCLUÍDA movie. NETFLIX © 2021

Para Tetê, enfrentar a hostil atmosfera escolar é igual ou menos pior do que frequentar sua própria casa. Sua família, de integrantes pouco amáveis e pouco sutis, elevam a boa intenção de ajudar a menina a socializar, para o nível de invasivos ao extremo. Apesar da comicidade em certos pontos, seu núcleo familiar se divide em seus intuitos; ao passo que incentivam Tetê a aproveitar a vida, a rodeiam de preconceitos antiquados e ofensivos, como a quase imposta necessidade da menina seguir os rótulos femininos. Assim, é explicado o porquê de Tetê esconder-se embaixo de uma carapuça, dado o enquadramento de como se portar idealizado por seus avós e pais. Ainda que seja um indivíduo de inteligência e índole diferenciadas, é preferível ser notado apenas seu exterior desleixado, que – ponto para o filme – não passa por uma transformação total que deixa todos deslumbrados, tais quais obras do gênero.

Obviamente, há clichês que são as raízes deste estilo teen presentes em Confissões de Uma Garota Excluída não só na relação Valentina, personificação convencional da garota má, superficial  e conhecida na escola, versus Tetê, o oposto disso, mas também no grupo que a personagem formou. O menino homossexual, Zeca (Marcus Bessa), e o outro constituinte, um menino negro em que os pais falecerem, Davi (Gabriel Lima), formam um trio estereotipo de sofredores de discriminação por motivos visíveis. Os jovens, que possuem uma relevância na mudança de atitude e de perspectiva de Tetê, não compartilham do mesmo desempenho. Ao mesmo tempo que Davi é um legítimo padrão de “criado por avós”, com uma educação até ultrapassada para o que se vê atualmente, Zeca se esforça para encaixar-se carregando a ironia e a carga emocional de seu papel, aparentando, então, uma figura forçada. O abaixo a rivalidade feminina também não interpreta bem sua função, tendo seu resultado somente quando convém à evolução narrativa do filme.

CONFISSÕES DE UMA GAROTA EXCLUÍDA (L TO R) GABRIEL LIMA as DAVI, KLARA CASTANHO as TETÊ, MARCUS BESSA as ZECA in CONFISSÕES DE UMA GAROTA EXCLUÍDA movie. NETFLIX © 2021

No início, cores complementares e vívidas eram apreciadas no longa-metragem, que, juntamente com elementos estilizados e modernos confeccionados para sobressaltar o universo dos jovens, como pop-ups coloridos de mensagens na tela, atuam com esperteza na evidência de um geração high tech. Entretanto, a direção de Bruno Garotti peca ao perder tal estética durante seu trabalho, tornando-o sem grandes qualidades visuais e autorais. A passagem do sonho para o real de Tetê, por exemplo, é realizada sem clareza, dificultando a compreensão do que é imaginação e o que é o factual. Outro aspecto negativo diz respeito ao terceiro ato do longa-metragem; furos, clichês, uma sororidade falsa e um desfecho comum tiram o brilho deste segmento, decepcionando quem esperava mais sobre a consistência da mensagem do filme.

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Os romances púberes, os renegados da escola, a fixação da menina estranha pelo estudante “alfa”, a descoberta de seus gostos e de sua natureza, etc., estão em Confissões de Uma Garota Excluída. Com o roteiro assinado pela autora da obra em que o filme tem como referência, Thalita Rebouças, o longa-metragem é reformado com uma linguagem atual e entendível para todos os públicos. Pode-se dizer que o filme é o mais melancólico e profundo dos “live actions” dos livros da artista, lidando com questões altamente úteis e difíceis de se manusear com leveza, como o bullying e o sofrimento proveniente de um isolamento induzido pelos outros. Contudo, intrinsecamente ligado às convenções dos últimos projetos baseados nesta mesma fonte produzidos pela Netflix, o longa-metragem cai em certas lacunas pré-programadas, como o desfecho previsível. A experiência, porém, pode ser agradável em seu geral, proporcionando 1 hora e meia de reflexão – com algumas risadas – no que se refere a indagação do que é só um drama adolescente e o que é, de fato, um problema a ser observado.

Revisão Crítica

NOTA
Laisa Limahttp://estacaonerd.com
Uma mistura fictícia de Grace Kelly, Catherine Deneuve e Brigitte Bardot versão subúrbio carioca do século 21.

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