Crítica | Deserto Particular

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É fácil acabar encaixando Deserto Particular numa retórica batida aos comportamentos conservadores que assolaram o país nos últimos anos. A figura do policial Daniel (Antonio Saboia), com seu porte ameaçador e a constante sugestão de explosão agressiva, formam uma latência muito pertinente no caminho para construir essa visão de revide. Não apenas pelo contexto trabalhado no prólogo sobre a violência institucionalizada que ganhou a mídia e, consequentemente, revelaram essa face bestial do personagem. Como também por sua obsessão por Sara, mulher que conheceu na internet. Formando um pensamento por essa combinação de aparências, a tragicidade seria a primeira ideia de muita gente. Mas é nessa criação de expectativa, fomentada pelo artificial, que Aly Muritiba faz de seu filme uma mensagem sobre aceitar o amor e resgatar uma reconciliação consigo mesmo e o outro.

A jornada de Daniel até Sobradinho para encontrar a moça vai deixando de pertencer a uma ideia de perseguição e começa a se encaixar na proposta de desespero levado pela paixão. Quando decide atravessar o país numa jornada pessoal, Daniel está indiretamente assumindo seu amor antes mesmo de encará-lo de fato. Nessa eterna dialética entre idealização e o real, Muritiba fundamenta suas escolhas estilísticas na criação dramática convidativa ao encanto. Na cena do encontro entre Daniel e Sara, existe uma composição muito interessante sobre a complexidade dos personagens. Enquanto Daniel é enquadrado ao lado do espelho, criando duas versões de si mesmo (a virtual e a real), Sara apenas é mostrada pelo reflexo, denotando sua construção plenamente formada pelo mundo das ideias. Quando decide mostra-la após essa dinâmica, a personagem preenche a tela, iluminada por uma luz dura e completamente fora de sintonia com a imagem de Daniel. Tudo parte de uma externalização do sentimento com o ambiente e a completa tomada se consuma pela cena da dança.

Foto/Divulgação

Apesar da demarcação temática com a música Total Eclipse of the Heart em sua dramatização, Muritiba equilibra essa euforia com a rigidez do contraste entre a quebra e a expectativa. Nos momentos em que precisa trazer essa realidade oprimida pelo contexto conservador, não falta manejo para acordar os personagens dessa ilusão e retirá-los dessa fantasia, os jogando de volta no mundo que os limita. São nesses momentos que a verdadeira violência criada por Deserto Particular se expande pela história. Não precisa ter uma entrega verdadeiramente física, o corpo sente muito mais pelo silencio, pelo incomodo da situação. A dor física é passageira comparada com a dor da perda.

Ao optar por uma conciliação entre seus conflitos, fica clara a intenção positiva do diretor de usar da história como discurso apaziguador. Porém, acaba por simplificar certos núcleos em uma rápida resolução satisfatória para o meio, mas pouco verdadeira diante da representação antes trabalhada. É como se, para chegar no verdadeiro clímax, precisasse incorporar as alavancas narrativas em um único problema, e disso resolver toda uma questão para caminhar ao encontro planejado. Não soa deslocado, muito menos dispersivo do resto da proposta, mas talvez pareça um pouco conciliador demais para toda a problemática desenvolvida.

Um ponto muito pertinente no longa é a ligação com a cidade de Sobradinho. Enquanto a cidade é inicialmente apresentada como refúgio do homem deslocado, seu passado permeia a narrativa, de forma a se mostrar como alegoria para a situação. Não sendo apenas palco de uma travessia, o município baiano manifesta sua historicidade econômica como a lembrança de um controle imposto e da destruição da verdadeira identidade. Acima da barragem de Sobradinho está localizada a cena mais pura do filme, uma reparação entre os personagens e a cidade. Por se mostrarem tão abertos um com o outro e tão livres – tanto da cidade grande quanto do interior – esse singelo momento contradiz tudo que vinha sendo mostrado, numa esperança de empatia e amor tão necessária dos dias de hoje. A frontalidade do momento de catarse até se presta a sua função, mas é nessa cena que Deserto Particular demonstra toda sua sensibilidade e pureza para tratar de um assunto tão difícil que é o amor.

Foto/Divulgação

Não é necessário esbanjar seus temas como súplica pela importância. Viver, existir, se posicionar, amar. Tudo isso que vai contra essa onda opressora dominante é um ato de resistência. Para ser efetivamente político, o filme só precisa ter ciência de seus temas e abordá-los da forma mais verdadeira que conseguir. Felizmente, Deserto Particular faz de sua história de amor uma esperança para tempos mais conturbados, onde podemos acreditar numa conciliação e na saída para as violências propagadas a esmo pela derrocada político-moral. É bonito ver essa sensibilidade num momento em que ser sensível demostra fraqueza e que demonstrar o afeto torna-se motivo de julgamento. Talvez o filme ganhasse os holofotes em outro contexto, mas ser um símbolo de resistência num país tão fragmentado certamente eleva muito sua potência de atingir a maior quantidade possível de pessoas.   

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Revisão Crítica

Nota:
Gabriel Lunahttp://estacaonerd.com
Jornalista que se aventura no mundo da crítica de cinema. Gosto de café e filme em preto e branco.

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