Crítica | Difícil de Engolir

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O continente mais antigo do mundo é uma fonte que embebeda o resto da Terra. Mais valioso que suas riquezas minerais, é o fruto artístico da África. Tendo como modelo de uso deste instrumento, a clássica Era de Ouro de Hollywood desfrutou de locais como o Quênia para reafirmar o poder cultural das zonas africanas, sendo John Ford em Mogambo (1935) um dos que usufruiu disso, ainda com o respaldo do talento de Ava Gardner, Grace Kelly e Clark Cable. Ainda assim, os filmes feitos verdadeiramente por africanos permanecem no desconhecimento coletivo; Diário do Pescador (Enah Johnscott, 2020), lançado na Netflix no ano passado, não recebeu metade da audiência que uma obra de Hollywood de mesma temática teria. Em uma tentativa de contornar essa situação, a plataforma de streaming lança novamente uma investida; Difícil de Engolir (2021), de Kunle Afolayan, estreia com uma trama que denuncia a Nigéria dos anos 80.

Adaptação do livro da nigeriana  Sefi Atta, “Swallow”, Difícil de Engolir apresenta Tolani (Eniola “Niyola” Akimbo), uma mulher insatisfeita com sua vida que aceita participar de um esquema de tráfico de drogas. Influenciada por sua colega de quarto Rose (Ijeoma Grace Agu), a personagem precisará passar por cima de seus princípios visando uma melhoria em sua condição, por mais que as vias para obtê-la tragam um risco evidente. No caminho para o alcance de sua escolha, Tolani enfrenta percalços inerentes da pobreza em que vive, dos atos ultrapassados dos residentes da comunidade em que mora e das consequências de pertencer ao sexo feminino na Nigéria da decáda de 1980. Logo, não passa ilesa por nenhuma dessas adversidades, o que piora seu estado de desespero para com sua existência.

Para chegar até Tolani e sua relação com o mercado ilegal de entorpecentes, o filme dá voltas por um emaranhado de subtramas que preparam o terreno para a aproximação da trama principal. Entretanto, tais histórias paralelas, como o romance da personagem com seu namorado de longa data, não saem do campo das áreas da vida da nigeriana exploradas para encorpar algo que necessitava de mais objetividade: o enredo pelo qual o longa-metragem se vende. A proposta de conhecer os lados obscuros da antiga Nigéria é interessante por si só, mas nada é aprofundado a ponto de tornar mais íntimo o contato do espectador com aquela realidade. Embora haja elementos que elaboram uma composição da atmosfera hostil em que vive Tolani, considerando o reconhecimento de visões rudimentares acerca de questões femininas (o matrimônio depende de um dote dado pelo marido para a família da futura noiva, por exemplo), entre outras; e a estrutura de fato arcaica que formam as moradias do lugar, isso se preserva com menos intensidade do que deveria. 

Apesar de Tolani ser a protagonista propriamente dita, é Rose que conduz boa parte da história. Com ela vem o início de todos os principais acontecimentos da narrativa, igualmente aos “porquês” de cada um e as explicações dos personagens a respeito dos motivos de estarem atravessando o caminho das mulheres. De forma expositiva, segundas interpretações não cabem em uma possível suposição sobre a causa por trás do traficante usar Rose daquela maneira, ou de Tolani deixar-se levar pela lábia da amiga, e por aí vai. Ao contrário disso, informações delicadas e necessárias são passadas de maneira a perderem a margem de pensamento próprio do público, interferindo diretamente no andamento dramático do enredo. Independentemente da capacidade de Rose e Tolani (principalmente desta última) como figuras fulcrais que contornam o rumo de Difícil de Engolir e o fazem promissor, visto inclusive o desempenho de Niyola e Ijeoma Grace, de resto, poucas aparições agregam um maior valor psicológico e efetivo para o filme, ressaltando apenas, talvez, a mãe de Tolani.

Contudo, acompanhando um roteiro fraco de tonalidades previsíveis, está a direção de Kunle Afolayan. Optando pelo uso da trilha sonora como integrante marcante de seu trabalho, a desconexão de músicas alegres juntas com cenas pouco felizes, além dos sons melodramáticos exagerados em instantes que uma maior sensibilidade seria mais apropriada, não balanceiam o mecanismo com um visual que requer seriedade. Também dispondo, às vezes, de cortes secos aleatórios, o filme não origina uma identidade estética, dado até a dificuldade de estabelecer a passagem de tempo, elegendo, em algumas sequências, um preto e branco amador e confortável para quando as ideias são limitadas. E, seguindo nessa linha, os resultados oferecidos pelo longa-metragem como finalização de sua história usam, por mais esforçados que sejam, a mesma insuficiência de recursos do resto da produção. 

Difícil de Engolir não é para todos os públicos. Definitivamente, para quem foi atraído pela premissa carregada de emotividade e historicamente intrigante, a decepção é capaz de ocorrer. Isso porque o desenvolvimento de todo ar promitente do filme estagna na restrita extensão criativa, que busca por opções narrativas, como a trilha sonora confusa e sentimental ao extremo ao mesmo tempo, mais cômodas. Todavia, esse é o tipo de longa-metragem que não era para ansiar por rumos comuns, e sim pelos mais fortes e emocionais possíveis, afinal uma trama como essa não é de se jogar fora. É notório o afinco em elaborar uma obra completa devido aos perfis variados dos personagens e da descrição das ramificações dos eventos mais desnecessários. Porém, isso não basta caso queira apresentar uma película completa em sua totalidade. Então, o que é imprescindível está no formato único de cada uma e no jeito em que sua dramaticidade é organizada, equilibrando o básico e o baque. Em Difícil de Engolir, ambos se fundem em uma Nigéria superficial.

Revisão Crítica

NOTA
Laisa Limahttp://estacaonerd.com
Uma mistura fictícia de Grace Kelly, Catherine Deneuve e Brigitte Bardot versão subúrbio carioca do século 21.

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