Dona Beja é uma adaptação inspirada na vida real de Ana Jacinta de São José, uma mulher do século XIX em Araxá (MG) que se torna símbolo de poder e liberdade. Após ser raptada, abusada e julgada pela sociedade, ela usa sua beleza e inteligência para se vingar, fundando um bordel de luxo e desafiando as normas conservadoras.
A nova novela da Max conta com 40 capítulos, sendo uma releitura da novela exibida pela TV Manchete em 1986. A direção de Hugo de Sousa (A Princesa) conta com acertos e erros. A história nos seus primeiros cinco episódios vai do ponto A ao B de modo muito direto e sucinto, sendo em alguns momentos descuidada com a narrativa. O roteiro escrito por António Barreira e Daniel Berlinsky usa de uma narrativa não linear para contar como os personagens se tornaram quem são e para distinguir passado e presenta Sousa usa diferentes estilos de enquadramento e iluminação, o que funciona bem. A dupla de roteiristas até tenta mostrar aqui e ali as dificuldades que os negros enfrentavam, questões sobre sexualidade e o romance vivido pelos protagonistas, mas a montagem da produção é tão frenética que esses elementos acabam surgindo e ficando em segundo plano, pois não se tem tempo para absorver as situações vistas. Com isso, os coadjuvantes, por exemplo, acabam sendo os mais prejudicados, pois se eles não tem nada para ajudar na narrativa do casal protagonistas eles somem da trama. A novela acaba sendo focada inteiramente na protagonista e na sua jornada. O que não é ruim, mas acaba gerando estranhamento em quem acompanha o formato convencional de novelas.

O julgamento da sociedade da época (em especial pelas mulheres), questões religiosas e a hipocrisia de um local conservador devem ser o norte dos próximos episódios da novela que não tem papas na língua e nem é puritana. A trilha sonora é um ponto positivo nesta trama. As canções são executadas em cenas onde elas agregam e dão autenticidade ao que vemos. Os locais da época, cenários e figurinos vistos são perfeitos e o design de produção é magnifico e transporta o espectador para 1815.
As atuações do casal protagonista Grazi Massafera (Verdades Secretas) e David Junior (Fim) são seguras e apaixonantes. Massafera é intensa, envolvente e repleta de coragem. Já Junior constrói um personagem que funciona como a voz a razão e que se perde ao dar voz ao coração (Dona Beja). Infelizmente, a talentosa Bianca Bin acaba sendo desperdiçada nesses primeiros episódios, mas tem espaço para crescer caso o roteiro da produção permita. Deborah Evelyn, Indira Nascimento, Erika Januza, Otávio Müller são outros atores que podem render mais tendo espaço, mas cumprem suas funções com maestria quando tem espaço.
Dona Beja se apresenta como uma produção frenética, ousada e revolucionária para o segmento de novelas. Se os demais episódios farão jus ao original, só o tempo dirá. Mas afirmo: Grazi Massafera deixará o público e a atriz Maitê Proença (que deu vida a Dona Beja na novela de 1986) orgulhosos por sua entrega.


