Crítica | Drácula

Baseada no livro homônimo de Bram Stoker, universalmente cultuado como melhor romance do gênero, a nova série da Netflix (com parceria da BBC), produzida por Mark Gatiss e Steven Mofatt (Sherlock Holmes), chegou ao streaming na última semana, prometendo fugir de todas as novas variações e derivados vampirescos que se têm visto ultimamente e trazendo de volta o horror e gore da década de oitenta. Pois bem, foram só promessas. Tudo o que Drácula puder fazer para decepcionar, fará com muito bom gosto e sem piedade alguma.

Jonathan Harker (John Heffernan) é um advogado recém-formado, noivo da linda Mina Murray (Morfydd Clark). Seu empregador o envia para acompanhar uma transação imobiliária de um conde, nas montanhas de Cárpato, Transilvânia. Drácula (Claes Bang), exímio anfitrião, acolhe Harker e, após uma descoberta, o faz prisioneiro em seu castelo, partindo em direção à Inglaterra. Este resumo básico e sem spoilers nos dá a ideia do clima criado em torno da figura vilanesca do conde e faz com que os mistérios subsequentes só enervem ainda mais a inquietude, quase que hedionda, que o livro causa.

Um pouco destas sensações podem ser sentidas ao iniciar o primeiro (de três) episódio, perdurando ao longo de seus 90 minutos. Os fatos trazidos aqui são fragmentos não lineares do material original, quando observamos Jonathan já no convento, sendo cuidado por freiras. Uma delas, Agatha (Dolly Wells), é incumbida de interrogá-lo, para saber mais detalhes sobre o que acontecera com o jovem, narrando sua versão, enquanto que, em forma de flashbacks, a história nos é apresentada. A partir deste momento, o grau de imersão do telespectador é posto à prova quando Gatiss e Mofatt resolvem ser eles mesmos e detonam logo de cara o destino de um personagem importantíssimo, em seu primeiro Plot Twist avassalador, eliminando de vez qualquer esperança de verossimilhança.


No episódio seguinte, os reflexos das ações tomadas no convento são apresentados numa metáfora que funciona até a metade, quando vem o segundo Plot (reviravolta), cuja sensação é equiparável a tomar chá de boldo, quando se deve escolher entre a cura e a dor, ainda que haja ódio pela erva. Percebe-se a intenção da direção em desenvolver um roteiro semelhante a filmes como Assassinato no Expresso do Oriente e do recente Entre Facas e Segredos, mas seu tom perdido e desconexo, além de apressado, só destoa ainda mais com sua conclusão. Os últimos dois minutos trazem o terceiro (e inacreditável) Plot, quando tudo que não poderia acontecer, acontece. A sequência é tão hedionda que nem mesmo H. P. Lovecraft ousaria escrever em seu mais tenebroso conto.

O último episódio é simplesmente a maior incoerência já vista no gênero, trazendo personagens do livro em situações e em postos totalmente diferentes de algo imaginável. Nomes como Seward, Arthur, Lucy e Quincey são reduzidos às categorias de quase figurantes, num mundo que, desde o episódio passado, foi criado para que a história tomasse ares atuais e trouxesse um tom de humor maior. Esta transição é feita de maneira amadora e nota-se um despreparo que beira á falta de experiência, o que não é o caso, é só conhecer a direção de Jonny Campbell (WestWorld), Paul McGuigan (Sherlock Holmes) e Damon Thomas (Killing Eve), alguns atores e, é claro, todo o trajeto da BBC e Netflix.

Aos pouco familiarizados com a sétima arte, sobretudo com produções do gênero, a série se torna apreciável, ainda que com sérios erros de roteiro, atuações sofríveis e efeitos visuais de Playstation 2. Aos ávidos por gore, vampiros, mortes, boa história e atuações no mínimo, ótimas, o conselho é passar bem distante. Quando se está próximo de um novo ano, o melhor é desejado e oferecido, de nós aos demais. A Netflix te oferece isto. Feliz Ano Novo.

NOTA

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